The Handmaid’s Tale – O Conto da Aia.

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Aproveitei minha semana de recesso escolar e maratonei a série de TV “The Handmaid’s Tale – O Conto da Aia”, o qual eu já havia ouvido falar muito bem e tinha assistido alguns episódios fora de ordem, sem entender o contexto, e fiquei surpreendido pela qualidade da produção, pela história muito bem contada e pela atuação dos atores que participam da série, com destaque para Elizabeth Moss, que faz o papel principal da Aia chamada Offred, e a atriz australiana Yvonne Strahovski, que interpreta a esposa do Comandante Watford. As duas dão um show de interpretação, e não é a toa que a série já ganhou 8 Emmys e 2 Globos de Ouro em suas duas primeiras temporadas.

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O Comandante Watford e sua esposa

A série criada por Bruce Miller é baseado no romance homônimo de 1985 da escritora canadense Margaret Atwood, ganhadora do prêmio Governador Geral de 1985 e o primeiro prêmio Arthur C. Clarke em 1987. Também foi nomeada para o prêmio Nebula de 1986, o prêmio Booker de 1986 e o prêmio Prometheus de 1987. O livro foi ainda adaptado para um filme (1990) e uma ópera (2000). O livro narra a história da República de Gilead, uma nação que surgiu no antigo território dos Estados Unidos após um atentado que matou o presidente da república, boa parte dos congressistas e toda a suprema corte americana por um movimento fundamentalista de reconstrução cristã autointitulado “Filhos de Jacó“, que depois lança um golpe e suspende a Constituição dos Estados Unidos sob o pretexto de “restaurar a ordem”. A sociedade é reorganizada por líderes sedentos por poder com novas castas sociais, baseadas nas antigas escrituras da bíblia, nas quais as mulheres são brutalmente subjugadas e, por lei, não têm permissão para trabalhar, possuir propriedades, controlar dinheiro ou até mesmo ler.

Neste futuro próximo as taxas de fertilidade caem em todo o mundo por conta da poluição e de doenças sexualmente transmissíveis. A infertilidade mundial resultou no recrutamento das poucas mulheres fecundas remanescentes em Gilead, chamadas de “Aias” (Handmaids), que de acordo com uma interpretação extremista dos contos bíblicos do Velho Testamento são designadas para as casas da elite governante, onde devem se submeter a estupros ritualizados com seus mestres masculinos para engravidar e ter filhos para aqueles homens e suas respectivas esposas.

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June Osbourne

June Osbourne, renomeada como Offred (De Fred), que tem o nome de seu mestre masculino assim como todas as Aias, é atribuída à casa do Comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes) e de sua esposa Serena Joy Waterford. Ela está sujeita às regras mais rigorosas e uma vigilância constante. Uma palavra ou ação imprópria de sua parte pode levar a sua execução. Offred, pode se lembrar do “tempo de antes”, quando era casada, com uma filha e tinha seu próprio nome e identidade, mas tudo o que ela pode fazer com segurança agora é seguir as regras de Gilead na esperança de que algum dia possa viver livre e se reunir com sua filha novamente. Os Waterfords, fundadores do grupo “Filhos de Jacó”, religiosos extremistas responsáveis pelo atentado que fez surgir a República de Gileade, têm seus próprios conflitos com as realidades da sociedade que ajudaram a criar.

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“Tia” Lýdia

As mulheres de Gilead não têm direitos. Elas são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado. As Aias são obrigadas e treinadas a esta posição por “Tias”, mulheres que as preparam para a “cerimônia”, onde devem se deitar no meio das pernas da esposa da casa para onde foram designadas, ter os braços seguros por elas pelo pulso, enquanto o marido da mulher infértil a fecunda seguindo a história bíblica do Gênesis quando Jacó tomou sua escrava Bila e fez nela um filho a pedido de sua esposa Raquel. Além delas há também as Martas, escravas domésticas que já estão velhas para serem Aias, mas servem para organizar as casas da elite branca e cristã de Gilead. O governo é organizado a partir dos Comandantes, que são os dirigentes político-religiosos, os Guardiões, responsáveis pela força militar e policial da República e os Olhos, espiões colocados dentro das casas pelos Comandantes para verificar se as leis estão sendo seguidas. Somente o alto comando sabem quem são. Quem desobedece as leis baseadas nas escrituras bíblicas é morto, geralmente enforcado e seu corpo deixado a mostra para servir de exemplo. As Aias que desobedecem ou não cumprem com seu papel de reprodutoras são mandadas para as colônias, lugares onde o nível de radiação é mortífero e tornou o solo e o ar poluído, condenadas a trabalharem até morrerem.

Grupos de oposição dentro e fora de Gilead se organizam para tentar acabar com a opressão do governo e tentar voltar a normalidade. Esses grupos ajudam as Aias e Martas a fugirem para o Canadá ou então praticam atentados contra o governo. Além disso existe Os Estados Unidos Livre, um grupo de pessoas que se recusam a aderir a Gilead e fazem uma guerra civil no território americano.

Dito tudo isto, e sabendo que um enredo desses pode nos proporcionar horas e horas de diversão, pensei em trazer para o RPG a história do Conto da Aia, e qual seria o que melhor se encaixa dentro dessa premissa? Na minha opinião Delóyal, da Lampião Game Studio, escrito por Jorge Valpaços e Rafão Araújo. Vamos tentar adaptá-lo e depois sugerir outros sistemas também.

DÉLOYAL

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As Aias.

Se você ainda não conhece esse RPG nacional leia o artigo sobre ele clicando AQUI. O cenário do jogo trata sobre o tema de liberdade e o perigo de perdê-la, sobre resistir ao opressor que tira dos personagens  essa liberdade e como fazer para lutar e recuperá-la. A resistência a essa esse opressor vem na forma dos personagens dos jogadores, chamados de Libertadores. Eles deverão trabalhar para libertar seu povo e devolver a liberdade para sua nação. Baseado nisso não há RPG melhor para “O Conto da Aia” do que Déloyal.

Para criar o cenário é necessário responder algumas perguntas que são feitas para o guia de campanha. Elas tentam entender como e porquê o governo opressor tomou o poder.

  • Por que quiseram dominar? Porque sua fé é mais verdadeira, e o mundo estava sendo destruído pela estilo de vida dos não crentes. O governo de Gilead desenvolveu novas interpretações da Bíblia, usando as leis do Velho Testamento. O governo tem cometido genocídios com intuito de limpar a terra dos que ele considera impuros, tudo baseado em uma nova visão do livro sagrado.
  • Como dominaram? Através da assimilação e lavagem cerebral. Com a maioria da população com medo por conta da diminuição das taxas de natalidade, do envenenamento do solo e do ar, da falta de líderes após o atentado planejado pelos Filhos de Jacó, e sem ter em quem confiar, o povo passou a acreditar no novo governo que assumiu dizendo serem enviados para cumprir a vontade de Deus.
  • Quem os ajudou? A população local. Muitos aceitaram a nova ordem e os novos postos criados. Muitos se venderam ocupando cargos de poder, outros entregaram o próprio irmão, filho ou filha, que se desviaram da religião e da vontade de Deus por temerem a ira de Deus. O governo recompensa os delatores com prêmios e os delatados com a morte. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados no Muro, ou em praça pública, para servirem de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos.
  • Qual é o grande plano? Dominar todos através do controle pelo cabresto e dominação mental religiosa. Adestramento da população para que todos aceitem o novo estilo de vida. Usam propaganda religiosa e força militar, nas escolas, no rádio, e todo tipo de controle de massa, fazendo-os pensar que são “livres”.
  • Qual o estado das coisas? Expurgo aos Inimigos. O governo ainda tem dificuldade de controlar um território tão grande, e isso se reflete através dos órgãos de controle e obediência ao governo, fuzilando e enforcando quem desobedece as leis,. punido as Aias que não cumprem com suas obrigações enviando-as para as Colônias para morrerem doentes, caçando e matando a população LGBTQ+, e todo aquele que eles consideram pecadores. Não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. 

Depois precisamos imaginar os Libertadores, e para isso também devem ser respondidas algumas perguntas sobre eles.

  • Quem são eles? São homens e mulheres que se engajaram na luta contra a ordem estabelecida pelo governo dominante. Que desejam a antiga ordem social de volta, os direitos civis e direitos humanos sendo novamente respeitados, e que as mulheres não sejam oprimidas pelo governo. 
  • O que eles fazem? Eles retiram mulheres de Gilead e atravessam a fronteira do Canadá com elas para que possam ser livres novamente. Organizam atentados contra as forças opressoras e procuram enfraquecer a estrutura de governo. 
  • Por que eles fazem? Porque acreditam que podem fazer a diferença, podem libertar seu povo e talvez tornar o país livre novamente.

Os conceitos de personagens para este cenário são:

  • Motoristas – Trabalham para os comandantes levando e trazendo os membros da casa para qualquer lugar quando precisam. Moram nas casas e por isso sabem de muita informação privilegiada. Supra: Condução.
  • Martas – Fazem o trabalho doméstico para a elite de Gilead. Moram nas casas e agem como espiões da resistência recolhendo informações e dados que possam ser usados na luta contra o governo. Supra: Investigação.
  • Contrabandistas – Responsáveis por levar homens, mulheres e crianças de Gilead para o Canadá passando pela fronteira entre os dois países. É um dos trabalhos mais perigosos da resistência.  Supra: Bravura.
  • Médicos – Responsáveis pela saúde das Aias quando estas estão grávidas e pelos bebês que nascem. Muitos não concordam com o sistema. Supra: Ciência.
  • Guardiões – Trabalham para o governo como força armada e de opressão a população, mas alguns secretamente ajudam a resistência. Sabem em primeira mão os passos do governo quando este pensa em fazer uma ofensiva contra o povo. Supra: Violência.

Logicamente ninguém poderá jogar de Aia, e por alguns motivos básicos. Essas mulheres sofrem violência sexual durante a história e humilhações. Ter que narrar ou descrever o momento da Cerimônia quando isso ocorre pode não ser interessante na mesa de jogo e deixar algumas pessoas desconfortáveis, principalmente quem estivesse interpretando esta personagem. Por isso aconselho a deixar as aias como NPC. Além disso as Aias são o motivo pelos quais os outros personagens se sentem motivados a romper o sistema. Ajudá-las e libertar Gilead deste governo injusto passa a ser o objetivo de suas resistências ao sistema opressor.

Finalmente faltam agora as 3 Engrenagens, a máquina de guerra do governo opressor. Essas engrenagens são as estruturas montadas pelo opressor para administrar seu governo e se manter no poder. Elas trabalham juntas e derrubá-las é o alvo dos Libertadores.   São elas Corpo, Coração e Cérebro. Vejamos cada uma delas.

  • Corpo – É a base de poder, homens que são importantes para a estrutura do governo. Em nosso cenário seria um comandante o qual algum dos Libertadores trabalha na casa. Ele é um dos membros do Alto Comando Central e possui um nível de segurança médio ou alto. O objetivo não será eliminá-lo, mas usar as informações que ele possui para estar um passo a frente dos opressores, preparando um ataque contra o governo.
  • Coração – A força de defesa e de organização do governo. Derrubá-lo diminui as chances de contra-ataque das forças opressoras.
  • Cérebro – É a sede administrativa do governo.  É o Alto Comando Central. Onde são feitas as leis e discutidas as questões políticas de Gilead. Onde reside o Líder. O objetivo aqui é destruí-lo. Derrubá-lo não será fácil e talvez seja necessário várias sessões para conseguir chegar nele.

Para que a campanha fique interessante coloque alguns elementos dramáticos na campanha, como uma das Martas fazendo parte da resistência por descobrir que sua filha virou Aia, e está tentando levá-la para o Canadá. Ou um motorista que teve a família morta pelo governo e agora quer vingança. Um Contrabandista que precisa levar um recém nascido, que é seu neto, para o Canadá. Um motorista que se apaixonou pela Aia da casa onde trabalha, etc. Lembre-se também que homossexuais são tratados como “Traidores do Gênero” e condenados a morte e, portanto, precisam esconder sua orientação sexual de todos. Quanto mais drama pessoal nas histórias melhor.

OUTROS SISTEMAS

Além de Déloyal sugiro também adaptar “O Conto da Aia” para Savage Worlds, publicado pela Retropunk. Um sistema muito flexível e fácil de construir os personagens sugeridos na história. Outro sistema bom para a adaptação seria Terrra Desvastada, também da Retropunk. Substitua os zumbis do jogo por agentes do governo de Gilead, e construa os personagens como sobreviventes deste mundo distópico, que dá super certo. 

Espero que tenham gostado da ideia de adaptação e curtam muitas aventuras.

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