O Legado de Júpiter: Resenha.

Finalmente estreou na Netflix a série “O Legado de Júpiter”, que adapta a obra homônima das HQs escrita por Mark Millar e desenhada por Frank Quitely, aproveitando a onda de séries e filmes de super-heróis que vieram depois do sucesso da Marvel no cinema. A própria Netflix chegou a produzir séries de heróis da Marvel, como Demolidor, Jéssica Jones, Luke Cage, Punhos de Ferro e Os Defensores, mas desde que a Disney lançou seu próprio canal de streaming com novas séries da Marvel sendo produzidas por lá os canais concorrentes optaram por universos de super-heróis alternativos.

A Amazon Prime Vídeo, por exemplo, trouxe “The Boys, baseado nos quadrinhos de Garth Ennis, publicada pela Dynamite Entertainment, depois de ter sido dispensada pelas grandes editoras americanas. A série fez um enorme sucesso. Agora lançou a animação “O Invencível”, baseada nos quadrinhos da Image Comics, escrita por Robert Kirkman, o mesmo roteirista do sucesso “The Walking Dead”. Ambas a séries exploram a desconstrução do mito dos super-heróis com muita violência e cenas cheias de sangue e morte de personagens de maneira chocante. Isso fez com que muitos acreditassem que esta seria a tendência de O Legado de Júpiter, e talvez por isso ficaram um pouco decepcionado após assistirem aos primeiros 8 episódios, fazendo com que a aprovação da série no Rotten Tomatoes ficasse em 39%.

Irei comentar um pouco sobre a obra original, sua adaptação para a TV e dar sugestões para jogar uma sessão, ou campanha, de supers baseados nos personagens da série com seus amigos.

IMPORTANTE: O ARTIGO ABAIXO CONTEM SPOILLERS. SE AINDA NÃO VIU A SÉRIE OU LEU OS QUADRINHOS, CUIDADO!

A HQ

Assim começa a explicação, escrita por Levi Trindade na versão brasileira, sobre o tema de O Legado de Júpiter.

Imagine se pessoas com superpoderes realmente existissem e, um certo dia, decidissem que saberiam melhor do que nossos governantes como conduzir todas as nações do mundo?”

Em um mundo povoado com seres superpoderosos isso me parece muito mais verossímil do que super-heróis como da Marvel ou DC que apenas combatem o mal onde quer que ele esteja, ou até mesmo em The Boys, com superpoderosos interessados apenas em dinheiro. Ao invés de servir aos governos, os superpoderosos seriam os governos.

O Legado de Júpiter: Netflix divulga teaser da nova adaptação dos quadrinhos

Mas o que os impede que isso aconteça? Os ideais do Utópico, o maior super-herói do planeta e seu Código de conduta, líder e fundador da União da Justiça, uma coalizão de seres superpoderosos, no qual os super-heróis existem apenas para inspirar, mostrar o melhor que os seres humanos podem fazer, e não usar seus poderes para influenciar governos, políticas econômicas e principalmente, punir super vilões com a morte. Eles devem ser capturados, julgados e presos na Supermax, a prisão feita para pessoas com superpoderes que cometeram crimes.

Mas nem todos pensam assim. Seu irmão Walt, o Onda Mental, por exemplo, acredita que tem a solução para a economia mundial e deseja influenciar os líderes mundiais a seguir suas ideias. Seus filhos, Brandon e Chloe Sampson odeiam a maneira que seu pai os trata, já que não querem seguir a carreia de super heróis, apesar de terem poderes, e constantemente serem considerados uma decepção para ele. Os super-heróis mais jovens também acreditam que o Código está ultrapassado. Eles acham que os heróis mais velhos são anacrônicos e querem o poder para eles. Esse conflito entre o velho e o novo, entre seguir um Código moral ou não, entre servir ou dominar, permeia toda a história e colocam super-heróis uns contra os outros, onde o grupo formado pelos heróis mais jovens forma um super exército de fascistas que passam a controlar várias nações e ditar comportamentos. A Supermax se torna uma prisão política onde são levados os supers que não se aliam a eles.

Legado de Júpiter | Depois de teaser, Netflix confirma conclusão nas HQs -  Canaltech

A HQ foi publicada em 10 edições entre abril de 2013 e julho de 2016 com uma periodicidade bem estranha e irregular. Ela foi publicada no Brasil pela Panini em dois encadernados e é uma das minhas favoritas, apesar de saber que tem algumas coisas que me incomodam no seu roteiro. A ideia de Mark Millar é a mesma de todos os escritores que tentaram desconstruir o modelo de histórias de super-heróis, como Mark Waid, Garth Ennis, Grant Morrison, entre outros: Com superpoderes podem surgir superpoderosos que irão impor sua vontade sobre os demais achando que estão fazendo o bem. Mas O Legado de Júpiter foge do convencional ao homenagear todos as histórias de heróis da era de ouro dos quadrinhos, onde havia um código entre eles de sempre levar os vilões a justiça. Você já parou pra pensar quantos assassinatos os heróis da Marvel já cometerem nos filmes? Tem site que já fez até estatística sobre isso. Será que isso é coisa de super-herói?

Tudo o que você precisa saber sobre O Legado de Júpiter

Em abril de 2015, antes mesmo de terminar a história anterior, Millar lançou “O Círculo de Júpiter”, que narra os acontecimentos da União da Justiça nos anos após os heróis ganharem seus poderes e os problemas pessoais que enfrentaram na época, além de explicar o motivo de George Hutchene, o Skyfox, ter saído do grupo e passar a ser considerado um vilão. Quem sabe a Netflix não adapta essa HQ também?

A SÉRIE

Eu gostei bastante da série, principalmente porque ela desenvolve melhor o motivo de Sheldon (Josh Duhamel) ir para a ilha depois de ter visões dizendo que deve procurá-la. Mostra a dúvida que a todo momento aqueles que o seguem sentem no trajeto, e explica melhor o Código, e porque o Utópico tem obsessão por ela, já que para conseguir seus poderes eles tiveram que se mostrar dignos de recebê-los através de vários testes que tiveram que passar no caminho, entre eles o de não se matarem. Ele acredita que os heróis devem ser pilares de honra, justiça, honestidade e liberdade para toda humanidade.

Quem é quem em O Legado de Júpiter, a nova série de super-herói da Netflix?  | Arroba Nerd

Outro ponto que gostei da série e mostrar como Hutch (Ian Quinlan), filho do maior vilão do mundo, Skyfox, e Chloe (Elena Kampouris), filha do maior herói do planeta, Utópico, começam a se envolverem amorosamente, dando mais sentido a trama que virá em seguida. Tem surpresa aí.

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O desenvolvimento da personalidade do Utópico, mostrando sua obsessão em relação ao Código e como isso está incomodando os heróis mais jovens, é outro ponto importante da série. Esse conflito de gerações, entre o pacifismo e cumprimento das leis pelos heróis mais velhos, contrapondo a violência gratuita e o desejo de fazer justiça com as próprias mãos dos mais novos revela uma maneira de Millar mostrar a diferença que as histórias de super-heróis sofreram através do tempo. O fato do Brandon (Andrew Horton) matar o Estrela Negra e ser apoiado pelos outros heróis, seu tio, a polícia e a imprensa, mostra que o Código está obsoleto nos tempos atuais.

Em compensação algumas coisas me deixaram incomodados. E nem foram os efeitos nas lutas ou o CGI como muitos reclamaram. Primeiro foi a cópia do Estrela Negra. Desnecessário e confuso. Ideia de professor Pardal. Depois o pouco uso dado a Raikou, uma personagem interessante e que nas HQs tem um papel importante pra trama. A luta contra ela em Dubai é uma das melhores da HQ e gostaria de ter visto ela sendo reprozuida na TV. A pouca rebeldia de Brandon, sempre abaixando a cabeça para o pai, e querendo ser um exemplo pra ele foi outro ponto que não gostei, já que nas HQs ele se mostra desde o início revoltado com o pai. Já a Chloe achei fantástica e bem próximo dos quadrinhos, assim como um melhor desenvolvimento dos super-heróis secundários e a insatisfação deles em relação a liderança do Utópico. Fica muito mais claro por quê eles irão se rebelar na próxima temporada.

O ritmo da narrativa podia ter sido melhor. Alternar momentos atuais e a história do passado, mostrando como chegaram a ilha, indo e voltando, não foi a melhor escolha. Podiam ter pego dois episódios no meio da temporada e narrado apenas sobre o passado, deixando os demais capítulos para o presente e os conflitos que começam a se formar entre o antigo e o novo. Mas no geral a série não decepciona e deixa um gostinho de quero mais.

ADAPTANDO PARA RPG

Como sempre eu acho que o melhor sistema para simular um cenário de supers é Savage Worlds em conjunto com o Compêndio de Superpoderes. Outra opção também é Mutantes e Malfeitores.

Adaptar uma série como O Legado de Júpiter para RPG só fica legal, na minha opinião, se for para os jogadores serem super-vilões ou super-heróis que não concordam com a tomada de poder pelos heróis mais jovens, e são caçados por eles. O medo de ir parar na Supermax, ou até mesmo ser executado pelo novo governo global, deve ser suficiente para render várias sessões de aventuras.

Ao invés de copiar os personagens da série para sua aventura/campanha, crie heróis que estão em outras partes do mundo ou use o exemplo de vilões no capítulo 6 do Compêndio de Superpoderes e use como os superpoderosos que não querem seguir o Código da União, que nesse momento não existe. Crie personagens Quatro-Cores começando com apenas 20 pontos de poder e veja como sobrevivem a este mundo caótico. Ou se preferir deixe os 45 pontos originais mesmo.

O novo governo tem agentes como descritos nas páginas 55 e 56 do Compêndio que darão ótimos desafios para os jogadores antes de enfrentar um dos pesos pesados. Policiais, Soldados e Unidades RCPS irão se parecer muito com o que é mostrado nas HQs, enquanto os Cidadãos podem simular políticos e advogados que também aparecem ao longo da história.

Por fim estabeleça motivações para eles agirem contra os agora donos do mundo. Exemplos:

  • Alguém importante para eles está preso na Supermax e eles devem criar um plano para tirar essa pessoa de lá;
  • Eles querem encontrar o Skyfox, que não quer se encontrado, para ajudá-los a derrotar o governo dos supers;
  • Eles querem encontrar outros supers que estão sendo perseguidos e levá-los para um lugar seguro que criaram para si antes que os heróis os encontrem;

Se ainda não assistiu a série corre na Netflix e faça uma maratona. Depois passa na Amazon e compre os encadernados antes que eles esgotem. Te garanto que vai gostar.

OBS: APESAR DE TER DADO ALGUNS SPOILLER NESTE ARTIGO DEIXEI DE LADO O PLOT TWIST QUE DEVERÁ VIR NA SEGUNDA TEMPORADA. VAI SURPREENDER MUITA GENTE.

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