Criando Sua Campanha De Supers Diferente.

Os super-heróis estão na moda de novo! Não que eles nunca estivessem, mas é inegável que o sucesso recente da Marvel no cinema impulsionou uma enxurrada de produções voltadas para o universo dos super-heróis e personagens de histórias em quadrinhos no cinema, em vários canais de streaming e canais abertos nos EUA. Recentemente a versão do diretor Zack Snyder para o filme da Liga da Justiça foi disponibilizado para o público e causou o maior alvoroço entre os fãs da DC e até mesmo da Marvel. Já falam inclusive sobre uma continuação, principalmente por conta do final e das implicações que o filme deixou no ar.

Temos visto nos últimos anos séries de TV da DC sendo produzidas pelo canal CW, e transmitidos no Brasil pela Warner, como The Flash, Arrow, Legends of Tomorrow, Supergirl e mais recentemente Superman & Lois e Stargirl. Tivemos Constantine produzido pela NBC; HBO produzindo Batwoman, Monstro do Pântano, Patrulha do Destino e Watchman; a Disney com WandaVison, Falcão e Soldado Invernal e anunciando Loki, e Shangh-Chi e a Lenda dos Dez Anéis ainda para este ano. Até mesmo a Prime Vídeo entrou nessa onda com The Preacher, The Boys e a série animada de Invencível. A Starz tem a série Pennyworth, que conta a historia do Alfred antes de se tornar mordomo dos Wayne. A Netflix já anunciou O Legado de Júpiter, primeira produção da Millarworld que estreará em Julho, e está produzindo Sandman, tendo em seu catálogo atualmente Lúcifer, que é derivado do universo de Sandman.

Supers and Bats by Thrubardockeyes on DeviantArt

Tudo isso tem deixado os fãs de quadrinhos bem empolgados e com vontade de montar uma campanha de supers para jogar com os amigos (online é claro, até essa pandemia acabar, ok narradores?) explorando um universo de heroísmo onde os personagens voam pelos céus, velocistas correm na velocidade do som, homens e mulheres param balas com o peito e atravessam paredes de concreto como se fosse papelão. Existem no mercado nacional vários sistemas para sessões de Supers, como GURPS (Não façam essa cara! Foi um dos primeiros a trazer um cenário de Supers para o Brasil e ainda é referência para muitos narradores), Fate, Mutantes&Malfeitores, Savage Worlds, Icons, etc.

Mas e se o Narrador quisesse surpreender seu grupo e usar um outro tipo de sistema para contar uma história diferente do que estamos acostumados em Supers? Temos vistos muitos escritores propondo uma nova maneira de ver o mundo dos heróis da forma como estamos acostumados, como em The Boys onde com grandes poderes vem grandes canalhas; Invencível, onde ser um super não é tão heroico e glamoroso como pensamos; e Legado de Júpiter, onde os heróis se tornaram opressores, apenas para citar alguns exemplos.

A ideia seria jogar um cenário de Supers com uma pegada diferente, utilizando um sistema que habitualmente não usaríamos para jogar uma campanha deste tipo e ver o que acontece, deixando de lado um pouco a criação de personagens baseados nos seus superpoderes e usar personagens que confiam mais nas suas habilidades e técnicas. Muitos preferem jogar com heróis já conhecidos do público em geral e usam o universo Marvel e DC como referência, mas as vezes é bem legal montar nosso próprio universo de Supers, criando toda uma mitologia e enredo original para jogar com os amigos.

SUPERS! The Comic Book RPG (Revised) by Walt Robillard — Kickstarter

Vamos então debater sobre essa ideia lembrando sempre que são apenas dicas, sugestões do que eu acho interessante de compartilhar com os leitores. Use aquilo que achar legal, descarte o que não gostar. Não existe certo ou errado em RPG.

FAZENDO DIFERENTE DO HABITUAL

Jogar um cenário de Supers com um sistema de Supers onde passamos boa parte do tempo definindo poderes, qual é a força de determinado herói comparado a outra, é a coisa mais normal do mundo. Mas podemos fazer diferente e surpreender os jogadores com um sistema adaptado sem perder a essência dele. Eu tive essa ideia meio louca ao ver o final do Snyder Cut (prometo que não darei spoiller) e imaginar como seria legal jogar usando sistemas como Déloyal, ou Terra Devastada, para a proposta do cenário devido a distopia imaginada por Snyder em seu final.

Déloyal é um jogo publicado pela Lampião Game Studio, escrita pelo Jorge Valpaços e Rafão Araújo, e que usa o sistema L’Aventure, onde uma força invasora opressora conquista um local e um grupo de libertadores se juntam para expulsar essa força. Já analisamos este jogo aqui no blog. Caso queira saber mais sobre ele antes de continuar clique AQUI para poder entender melhor a proposta.

Pode-se criar histórias de Supers interessantes com um pouquinho de imaginação usando Déloyal. Dentro da minha proposta os personagens devem ser um grupo de heróis que sobreviveram a uma invasão alienígena que matou a maioria dos heróis da Terra, ou talvez os mais poderosos, e agora esses heróis precisam liderar em segredo uma rebelião contra os invasores e salvar o mundo. Aqui o barato está em escolher os Conceitos de personagens apresentados no jogo e associá-lo a tipos de personagens que existem nos quadrinhos, ou criar o seu baseado em alguns modelos pré-existentes. Por exemplo:

Ás: Sua descrição diz que dirige tudo que possui manche, volante ou alavanca. Costumam ser pilotos de fuga e fazem coisas que nem mesmo o diabo acreditaria. Se você não pensou no Motoqueiro Fantasma você não lê quadrinhos.

Guarda Costas: Voltados para a violência e excelentes no combate corpo a corpo, podemos pensar em heróis como Asa Noturna, Wildcat, Rapina, Canário Negro, Shang-Shi;

Audacioso: Mestre da agilidade e com instintos felinos. Não vejo como não se inspirar em personagens como Demolidor ou Pantera Negra;

Detetive: Capaz de achar pistas e desvendar mistérios usando o poder de sua dedução. Batman é hors-concours nesse quesito, mas podemos pensar em Jessica Jones, Questão e Mysty Knight;

Doutor: O gênio das criações e das pesquisas científicas. O universo Marvel e DC é cheio deles, como Tony Stark, Hank Pim, Ray Palmer, Red Richards, Hank McCoy, Bruce Banner, etc. Como os peso pesados vão estar mortos nesse cenário, podemos pensar em Valéria Richards (filha de Red e Sue Richards), Riri Williams (Coração de Ferro) Shuri (irmã de T’Challa), Ted Kord (Besouro Azul) ou Michael Holt (Senhor Incrível) que também são muito inteligentes. Se quiser deixar a aventura interessante pode-se colocar ao lado deles vilões como Brainiac, Lex Luthor ou Victor Von Doom;

Experimento: O personagem foi usado como cobaia de um experimento secreto, que o transformou em um super soldado ou algo do tipo. Aqui não tem como não pensar em Capitão América ou Wolverine, mas como os pesos pesados vão estar mortos podemos usar Soldado Invernal ou Deadpool;

Mulher Fatal: Usa a sedução, a lábia, a mentira, para obter o que deseja. Costuma agir como espiã ou ladra. Bom para Viúva Negra ou Hera Venenosa, se quiser deixar a aventura interessante.

Homem/Mulher da Lei: Esse conceito engloba soldados, homens da lei, guardas, vigilantes, etc. Pense em Nick Fury, Maria Hill, Monica Rambeau;

Ladino: Personagem que tem a habilidade de entrar e sair de locais sem ser visto, arrombadores, ladrões. Pensei em Gata Negra, Mulher Gato, Ronin (Ex-Gavião Negro), Vespa.

A força invasora poderia ser dos impiedosos Kree ou então dos odiosos Skrull, caso esteja jogando no universo Marvel. Caso esteja jogando no universo DC pode ser um exército de Apokopolis ou de Kriptonianos que estavam na Zona Fantasma e que agora controlam o planeta. A premissa deve sempre ser que os principais heróis do planeta morreram e só resta o grupo atual, de personagens nem tão poderosos, para tentar expulsar os invasores.

Imaginando um grupo de 4 ou 5 jogadores, mais o narrador, um grupo de resistência formado por Soldado Invernal, Jéssica Jones, Shuri, Nick Fury e Motoqueiro Fantasma, lutando nas sombras para expulsar o exercito invasor ao mesmo tempo que procuram motivar a população e descobrir mais heróis sobreviventes que queiram participar do levante, daria uma excelente sessão de jogo. Ou então criem seus próprios heróis e inimigos dentro deste cenário.

O legal dessa proposta é que os jogadores não terão que ficar pensando em poderes dos personagens, mas nas habilidades que os caracterizam no conceito escolhido e pensar em como elas irão contribuir para a resistência da humanidade perante aos invasores alienígenas.

Imaginando a ficha de Nick Fury, por exemplo, ela ficaria assim:

Marvel Comics | Agente Coulson e Nick Fury dos filmes estreiam nos  quadrinhos [Atualizado]

Nome: Nicholas Joseph Fury

Conceito: Homem da Lei

Supra: Bravura

Particularidade: Ex-Diretor da SHIELD, agora líder da resistência reunindo heróis sobreviventes para combater o inimigo.

Perícias: Bravura 1D12, Violência 1D10, Brilhantismo 1D8, Agilidade 1D6, Subterfúgio 1D6, Condução 1D4, Ciência 1D4;

Minúcias: Duro de Matar (Bravura), Ataque Corpo-a-Corpo (Violência), Fazer Aliados (Brilhantismo), Alvo Esquivo (Agilidade), Desarmar Sistemas (Subterfúgio), Despistar (Condução);

Laços: Shuri prometeu ser seu braço direito nessa revolução; Não confia totalmente no Motoqueiro Fantasma;

Sonho: Expulsar os invasores e trazer de volta a normalidade para o mundo;

Armamento: Uma Arma de dano 2 e uma arma de dano 1;

Vantagem: Símbolo de autoridade para todos, dominadores ou dominados;

Vantagem Especial: Milícias da Resistência organizadas para lutar ao seu comando;

Proteção: Uniforme de Kevlar leve. Proteção 1;

OUTROS SISTEMAS

Outro jogo de RPG interessante para usar em uma campanha de Supers com uma proposta diferente é Terra Devastada, publicada pela Retropunk Publicações, escrito por John Bogéa, que tem um cenário um pouco pior para os personagens, já que a humanidade está em vias de extinção, os governos colapsaram, e a sociedade civilizada como conhecemos quase não existe mais. Um grupo de heróis e vilões unido forças, tentando sobreviver e derrotar a sua principal ameaça, seria muito interessante. Batman, Coringa, Mercenário, Mera, Roy Harper (Arsenal), Senhor Incrível e Stargirl, lutando juntos para sobreviver em um mundo dizimado pelos Kriptonianos ou pelo maior herói de todos, um Superman enlouquecido após a morte da Lois Lane, seria incrível e desafiador. Mais uma vez pensar em outras características além dos superpoderes se torna interessante e faz com que os jogadores imaginem uma forma diferente de jogar uma campanha de Supers.

Imaginando a ficha do Batman ela poderia ficar assim:

BATMAN (Bruce Wayne)

Condição: Irritado com o Coringa.

Tormenta: Se considera culpado pela morte da Lois Lane e, portanto, pela ira do Superman, que matou bilhões de pessoas pelo planeta;

Características: Lutador de Artes Marciais; Inteligência Avançada; Detetive Perspicaz; Forma Física Decaindo; Resistente a Dor; Voz Intimidadora; Conhecedor de Tecnologia de Ponta; Possui Vários Esconderijos; Obcecado por Justiça; Pesadelos Recorrentes; Líder Nato;

Vejam como uma ficha simples e baseada em características do personagem nos faz imaginar o Batman e jogá-lo em um cenário pós-apocalíptico que traria muita diversão para os jogadores, ainda mais ao adicionar os outros personagens da aventura para criar cenas de conflitos entre eles e o ambiente no qual estão inseridos, com falta de recursos, um inimigo poderoso e tendo que contar apenas entre si para sobreviverem.

Apocalipse World, trazido para o Brasil pela Secular Games, é outro sistema interessante para jogar Supers sem que este seja seu foco principal, afinal ele foi designado para jogar em cenários apocalípticos. Mas aqui também usando uma boa dose de imaginação dá pra fazer uma adaptação bem legal. Já fiz uma resenha do jogo que pode ser lida AQUI, e existem algumas adaptações já prontas para campanhas de Supers usando AW que podem ser vistas clicando AQUI. Caso queira jogar um cenário gratuito sem ter muito o que pensar, sendo bem resumido e fácil de usar, pode clicar AQUI e baixar Superhuman, de Jamie Friston.

Mais uma vez imaginaríamos os personagens baseados em seus conceitos. Poderíamos ter Sharon (Foderosa), sobrinha de Peggy Carter; Tarô (Psico), uma mutante que vê o futuro em cartas de tarô; Frank Castle (Pistoleiro), o Justiceiro; “Boca de Algodão” Stokes (Maestrina D’), dono da boate e traficante de armas; e Amadeus Cho (Gênia), o 8º homem mais inteligente do mundo; juntos lidando com uma ameaça que trouxe o caos ao mundo após o desaparecimento dos Vingadores e outros heróis poderosos. Eles podem se unir para descobrir o que aconteceu com o grupo de heróis e restaurar a ordem no mundo. Será interessante ver o conflito entre Justiceiro e Stokes e como deverão deixar as diferenças de lado para combaterem um inimigo em comum.

JOGANDO COM VILÕES

Outra opção seria jogar em um cenário no qual os jogadores seriam os vilões ao invés dos heróis do jogo, mas vilões com uma missão para fazer o bem. Se você pensou no Esquadrão Suicida você pegou a referência. Nesse caso recomendo o RPG Ceifadores, um cenário da Lampião Game Studio, publicado pela AVEC Editora, escrito por Jorge Valpaços, que também usa o sistema L’Aventure, onde uma organização de assassinos altamente treinados são enviados para executar alvos escolhidos pelo contratante, que neste caso seria uma Agência Nacional ultra secreta. Os motivos da existência dessa organização, assim como os alvos, são todos determinados antes do início da sessão através da escolha das minúcias e detalhes. Dentro da proposta do jogo podíamos imaginar uma organização governamental que usa condenados com habilidades especiais para abater alvos que também possuem habilidades especiais ou são uma ameaça global imediata.

Dentro das minúcias do cenário o narrador pode criar o que quiser. Ele pode por exemplo incluir 3 aspectos relevantes colocando os personagens como condenados pela justiça que tentarão diminuir suas penas ao executar serviços “sujos”, sendo o alvos pessoas fora do alcance da justiça, não conseguir cumprir com a missão aumenta o tempo na cadeia e se tentarem fugir ou sabotar a missão resulta em morte imediata. Dessa forma estará mais do que justificado a necessidade desses personagens nas missões suicidas.

Entre aqueles que poderão estar presentes no grupo pode-se usar personagens do Esquadrão Suicida das revistas em quadrinhos, como Pistoleiro, Sanguinário, Capitão Bumerangue, Arlequina e Tubarão-Rei. Lembre sempre que o objetivo deles é matar o alvo e lidar com isso depois.

CONCLUINDO

Espero que tenham curtido a ideia e deixem comentários abaixo para saber se usaram em suas campanhas. Essas ideias são uma tentativa de jogar um cenário de Supers fora do usual, mas nos próximos dias irei compartilhar ideias dentro do padrão Supers, com sistemas mais voltados para o tema e a criação de heróis e vilões dentro do padrão normal. Um super abraço a todos!

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