Conduzindo Sua Primeira Campanha No V5 – A Cidade.

 

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Vejo muitos mestres empolgados em começar sua campanha com a nova versão de Vampiro: A Máscara 5ª edição, chamado agora de V5, abreviadamente, mas percebo que alguns não tem ideia de onde começar enquanto outros estão inseguros por onde começar. Com objetivo de ajudar estes mestres vou dar algumas ideias e sugestões para o início da campanha tentando cobrir todos os pontos que merecem atenção por parte dos Narradores, começando pela construção da cidade onde ocorrerá a crônica. Logicamente, como sempre digo aqui no blog, não existe maneira certa ou errada de contar sua história. As sugestões que darei neste artigo levam em consideração minha experiência pessoal de narrador e o que eu entendo como mais interessante para uma narrativa de um cenário que pretende descrever um mundo mergulhado nas trevas. Portanto pegue aquilo que achar legal, descarte o restante.

Londres

A ESCOLHA DA CIDADE

O primeiro passo, e o mais importante, é escolher a cidade onde irá acontecer a crônica. Mais do que simplesmente ser apenas um lugar para a narrativa acontecer, ela dita o ritmo e as intrigas que irão acontecer. Os Vampiros são criaturas territorialistas e se fixam nas cidades por serem os locais onde mais presas humanas se encontram, portanto ela deve ser tratada com importância. A mesma que os Vampiros dão para ela. Cada cidade trás consigo uma gama de problemas ou conflitos que devem ser explorados pelo narrador em sua crônica. Cidades como Rio de Janeiro, Cidade do Cabo, Chicago, Belfast, Berlim, trazem consigo histórico de conflitos que podem ser aproveitados pelos narrador, ampliando seus efeitos e dando oportunidade de dramas acontecerem.

Antigamente narradores brasileiros preferiam usar cidades americanas para suas histórias, seguindo os cenários pré-definidos nos livros oficiais, mas ultimamente alguns cronistas tem optado por escolherem cidades brasileiras, geralmente as cidades onde vivem, o que facilita muito para o grupo de jogadores visualizar os locais descritos na aventura. Mas a cidade pode ser ficcional também, podendo ser uma cidade criada pelo Narrador, ou pelo grupo de jogadores, inserida em qualquer país do mundo. Ela terá sua dinâmica própria, conflitos e disputa, e também é uma opção interessante ao se pensar no cenário da campanha.

Eu particularmente tenho optado por usar cidades brasileiras ao invés de cidades estrangeiras e os motivos são simples: valorizar o cenário nacional, facilitar o conhecimento geográfico da cidade por parte dos jogadores, e ter a oportunidade de criar algo original. Em minhas mais recentes aventuras, de vários sistemas diferentes, tenho narrado os acontecimentos em Vitória, capital do Espírito Santo. Antes que alguém diga que jogar em um cenário no Brasil não é interessante, porque aqui não temos o FBI, a ATF ou CCD, como aparecem com frequência nos filmes americanos, leia a página 361 do livro básico e veja o apoio importante que o BOPE deu a Segunda Inquisição para a derrubada dos Vampiros através do mundo. Substitua a ATF pela PF e a CCD pela FioCruz, e teremos um cenário tão bom quanto o americano. Com um pouco de imaginação tudo pode acontecer no RPG. Lembre-se disso.

Sei que muitos mestres preferem cidades americanas ou europeias para suas crônicas por questão de gosto, então fiquem a vontade sobre essa escolha. O importante é que a cidade possa garantir conflitos devido ao seu histórico, seja real ou ficcional.

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A CIDADE E SUA HISTÓRIA

A história da sua cidade é uma característica muito importante, e um erro bem comum da maioria dos narradores é querer encaixar a história real da sua cidade na história do jogo. Isso não precisa acontecer. Não tente explicar todo o passado da sua cidade através da ação dos Vampiros. Crie a própria história da sua cidade, invente eventos passados ocorridos nela, nos quais os Vampiros tiveram influência ou não, descreva lugares que não existem de verdade mas que você acha importante criá-los para a crônica, cite personagens que só existam nela, sejam políticos ou celebridades. Não cometa o mesmo erro que a White Wolf fez ao tentar explicar situações reais ocorridas em outros países como sendo ações dos Vampiros. Os seres humanos continuam sendo a espécie predadora do planeta, então não tire de nós este “mérito”. Somos capazes de muitas maldades.

Não se preocupe também de querer criar toda a história da cidade antes de começar a narrativa. Crie apenas o que achar importante para explicar certas situações que irão te ajudar no início da narrativa e depois se houver necessidade invente mais situações. Em minha crônica por exemplo conto aos jogadores apenas o que aconteceu durante o período da Príncipe Toreadora anterior, Amélia, que morreu em um incêndio ocorrido em 1924 no teatro Melpômine, e o atual, Gualtiero, um Malkaviano paranóico que acha que todos conspiram contra ele. Não citei outros fatos ocorridos na história da cidade, nem contei sobre a chegada dos primeiros vampiros quando a capitania foi colonizada, porque isso não interfere com a história que irei contar. Isso vai ficando pra depois, conforme a narrativa avança e os jogadores queiram também contribuir com essa construção. As vezes querer detalhar tudo o que aconteceu na sua cidade antes da crônica começar pode engessar a narrativa. Deixe as coisas fluírem, e se houver necessidade crie.

Mais do que tudo lembre-se que a cidade de sua crônica não é a cidade real. Ela é a do universo que você está criando para contar sua narrativa, portanto ela tem sua própria história, seu clima, suas nuances. Na minha narrativa apesar de Vitória ser uma cidade onde o verão domina as quatro estações do ano, com muito sol e praia, descrevi que a poluição do ar provocada por uma empresa siderúrgica local, jogando pó de minério na atmosfera, provoca um céu nublado na maior parte do tempo, dando a sensação de escurecer sempre cedo. As ruas são mal iluminadas, e as pessoas evitam sair a noite sozinhas com medo das histórias que ouvem. Bem ao contrário do que acontece na realidade (a exceção do pó de minério, que é verdade).

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A CIDADE E SUA GEOGRAFIA

Lembre-se que existem lugares importantes na sua cidade que precisam ser criados ou descritos, como o Elísio, os campos de caça, os lugares ermos, as fronteiras e os locais dominados por cada grupo, Camarilla e Anarquistas. Definir esses lugares é o mais importante, porque são os locais onde os conflitos e as disputas irão ocorrer. O Elísio deve ser um local importante na cidade, mas ao mesmo tempo discreto, onde a chegada e a saída dos vampiros não desperte tanta atenção e seja seguro. Na minha cidade ele fica no Teatro Carlos Gomes, um local no centro da cidade, onde a noite é deserto, ficando fora do fluxo de pessoas, e que não vem sendo usado para eventos, apenas para visitação como atração histórica da cidade. Entrar e sair dele pelos fundos do Teatro não desperta a atenção de ninguém, ao mesmo tempo providenciando a segurança por parte dos lacaios de cada membro que se dirija ao local. Mesmo os que se aventurarem sem proteção terão a sua disposição várias rotas de fugas.

Os campos de caça também são importantes porque definem os domínios de cada Vampiro ou dos coteries da cidade. Devem ser tratados como feudos, e ser fiel ao príncipe, ou tramar sua derrubada, faz parte das intrigas pelo controle das áreas importantes na cidade ou que sejam grandes suficientemente para permitir que outros Vampiros possam usá-las na forma de alianças com o senhor do local. Elas são a mostra da força de cada Vampiro na cidade, assim como moeda de troca nas disputas políticas. Um Nosferatu que deseja ser mais influente nas decisões de sua cidade pode fazer alianças com alguns vampiros de outros clãs, permitindo que eles cacem em seu território, desde que estes os apoiem em assuntos discutidos nas reuniões do Conselho. Lembrando que apenas os Vampiros mais importantes e poderosos da cidade possuem domínios dados pelo príncipe para que estes apoiem seu governo. Os Vampiros mais novos e fracos da cidade devem se aliar a estes para terem um local de caça, e consequentemente ficam em dívidas com estes Vampiros, sendo usados nas tramas políticas dos amaldiçoados. Essa configuração de forças é que faz surgir as tramas e conflitos que dão origens as histórias. Se você assistiu a Game of Thrones com atenção vai entender como se formam e se rompem as alianças na busca por poder, principalmente quando se disputam domínios. Sinta-se a vontade para criar novas regiões na sua cidade ou aumentar e diminuir a importância delas em relação ao mundo real na sua crônica.

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Da mesma forma é importante definir os locais onde a Camarilla governa e onde ela é ameaçada pelo poder dos Anarquistas. Em regra os Anarquistas pegam para si locais desprezados pela Torre de Marfim e lá constroem sua base de poder. Geralmente esses locais ficam nas periferias da cidade, onde uma incursão de Vampiros da Camarilla correria o perigo de sofrer uma emboscada. Ao mesmo tempo os Anarquistas escolhem locais onde o poder da Camarilla é mais evidente para realizar suas incursões na tentativa de diminuir o poder da seita inimiga. É a Jyhad, a Guerra das Gerações, ganhando força nas cidades após a Segunda Inquisição e o Chamado, evento no qual os anciões abandonaram suas posições de poder para irem ao Oriente Médio combater os Anti-Diluvianos, diminuírem a quantidade de Príncipes e as Primogênies ao redor do mundo, enfraquecendo muito os Vampiros associados a Camarilla.

Sinta-se livre também para suprimir este conflito se não achar que será interessante para sua campanha, mas lembre-se que em algum momento este embate será inevitável devido as disputas pelo poder entre Ancillas e Neófitos. Se quiser crie Autarquias, lugares onde alguns Vampiros se declaram independentes e não aceitam a intromissão das seitas, preferindo ficarem neutros e fora do jogo político, preocupados apenas de cuidar dos seus protegidos e do seu território. Lembrem-se de que eles devem ter um motivo para isso e força suficiente para resistir tanto a pressão de um grupo quanto de outro.

Finalmente crie as áreas ermas da cidade, locais onde criaturas sobrenaturais estranhas até mesmo para os Vampiros governam e nenhum Cainita se atreve entrar, a menos que seja estritamente necessário. Essas áreas podem estar sobre o controle de Wights, Vampiros consumidos pela Besta, ou então por um bando de Sangue-Fracos, que por serem numerosos ameaçam investidas individuais de Vampiros. Podem ser locais onde Fadas ou Lobisomens usam para seus assuntos e não aceitam a presença dos Sangue-Sugas. Coloque esse locais na fronteira da sua cidade, bem distante do centro de poder dos Cainitas. São locais onde os Vampiros só vão por descuido ou para resolver uma situação emergencial. Se achar necessário crie essas regiões para sua cidade. Elas funcionam também como uma barreira natural para que os Vampiros de sua cidade permaneçam nela e não pensem em sair sem um bom plano para isso, ou podem se ver em apuros.

A CARACTERÍSTICA DE SUA CIDADE

7dcbd6a55fe11d443cd3bf18a1762fb7_originalToda cidade tem uma característica, algo que a distingue das demais. Apesar de no Mundo das Trevas elas se parecerem no geral, existe algo que as diferencia. No Rio de Janeiro existe o conflito evidente na oposição morro x asfalto, onde as comunidades das favelas entram em conflito com os condomínios de luxo da orla da praia. Suas festas populares são o único momento de união entre esses opostos. Em Salvador a religiosidade é acentuada, e grupos de religiões africanas e cristãs também se opõem, apesar de um grande número de pessoas transitarem entre os dois grupos. Em Nova York bairros com grupos étnicos vindo de outros países, como o bairro armênio, russo, italiano, chinês, entram em conflito com bairros de periferia, e sua maioria de afro-americanos, enquanto o americano médio detesta os dois. Já narrei para minhas filhas uma crônica ocorrida na cidade Albuquerque, baseada na série “Breaking Bad”, onde o tráfico de drogas intenso era a grande característica da cidade, e grupos rivais brigavam por este controle.

Na minha crônica a oposição está na chamada Área Metropolitana da Grande Vitória que engloba 4 cidades: Vitória, Vila Velha, Cariacica e Serra, sendo que Vitória e Vila Velha se acham mais importantes do que as demais e absorvem mais recursos, enquanto que as outras cidades ficam com níveis de desenvolvimento urbano menores. Defini que existe um principado, com Gualtiero governando a região, mas dando poder a dois barões: Emiliano, um Ventrue, Barão de Vila Velha, e Orázio, um Nosferatu, Barão de Cariacica. Serra está sem ninguém para reclamá-la devido ao grande número de Sangue-Fracos e Gangrels independentes que habitam a região. A criminalidade é alta e como a região é a maior de todo estado, sendo seus bairros bem distantes uns dos outros, com várias áreas verdes e de matas na região, os Vampiros preferem ficar longe, já que não é o habitat da preferência da maioria, mas de olho no que está acontecendo por lá. A disputa por áreas de caça que são escassas fazem com que alguns Vampiros sem domínios tenham que se aventurar nessas áreas mais distantes e perigosas, mesmo para um Vampiro. Ou então terão que começar a participar dos jogos políticos para terem direito a áreas de caça melhores.

Pense na cidade escolhida por você para sua crônica e procure por algo que a caracteriza, e comece por isto para definir os conflitos existentes nela e as histórias que irão ocorrer. Se precisar recorra a pesquisa na internet, ou então crie uma característica que você ache válida para ela.

MÃOS A OBRA

Espero que as dicas tenho sido úteis e possam ser aproveitadas pelos narradores. Sempre é bom também recorrer as dicas presentes no livro básico do V5 para a criação das cidades do jogo. No próximo artigo irei falar dos personagens que habitam sua cidade. Grande “abraço” a todos.

Um pensamento sobre “Conduzindo Sua Primeira Campanha No V5 – A Cidade.

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