Especial Vodu: A Magia Vodu Ficcional.

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A famosa “boneca” vodu.

A magia vodu é um aspecto da fantasia moderna muito mencionada em filmes, na TV, na literatura, nos quadrinhos, e também nos jogos de RPG, que nos mostram feiticeiros poderosos capazes de transformar pessoas em zumbis, lançar maldições, curar os enfermos, além de fazer pessoas sentirem dor através das famosas “bonecas” vodu. A ideia dessa série de artigos que se inicia hoje é contarmos um pouco sobre a magia vodu mostrada de maneira ficcional e os sistemas de RPG que utilizam sua mitologia, buscando dar ideias para que mestres e jogadores possam criar aventuras e personagens com a temática vodu. Então prepare sua “boneca”, pegue um alfinete e se liga no artigo.

Vodum (como é seu nome verdadeiro no dialeto fon) é uma religião que tem suas raízes em Benim, na África, onde é a religião oficial do estado com mais de 7 milhões de praticantes. Ela também é praticada em Togo, Gana e Nigéria. Além desses países, ela é praticada de diferentes maneiras em outras regiões do “Novo Mundo” para onde foram enviados, como escravos, os povos africanos que foram aprisionados pelos europeus que chegaram a África a partir do século XVI. Surgiu então o vodu haitiano, a santería cubana, o vudu creole, da Louisiana, e o candomblé brasileiro. Foram os escravos da nação Iorubá, de Gana, que trouxeram sua prática para o Brasil. Ela é baseada na crença que espíritos ancestrais, chamados Loas ou Orixás, protegem e guiam seus adorares, e se misturou com o catolicismo e outras crenças espirituais dos povos que viviam para onde foram enviados a força, para que pudessem ser praticados em seus cativeiros. O que iremos abordar nessa série de artigos não é essa religião, mas a ideia do vodu fantasioso mostrado em várias produções literárias e artísticas, onde magos ou sacerdotes poderosos podem realizar feitos fantásticos através de rituais de magia. Por isso utilizaremos sempre a expressão “vodu” ou “voodoo“, como se escreve em inglês, para distinguir e separar do Vodum. e suas crenças religiosas.

O vodu é um sistema de magia muito antigo e primitivo, que deriva de um complexo de crenças e rituais religiosos africanos, católicos e espíritas que estabelece uma ligação vital entre o mundo material e o mundo dos espíritos. As diversas divindades do vodu chamam-se loas. (Loa significa “espírito”, na língua do Congo) O propósito do vodu é permitir que os loas, que possuem o poder das forças naturais, se manifestem no corpo humano vivo, de modo que a pessoa possuída possa ser fortalecida por sua energia e sabedoria divina. A pessoa que permite a um espírito controlar seu corpo é chamado de “cavalo”, já que o espírito “monta” o possuído.

Os loas são como deuses ou santos para o vodu, como os orixás na Umbanda, os santos na Igreja Católica, os deuses pagãos para as religiões celtas, etc. Cada loa têm sua função, tanto para o bem quanto para o mal. Estes loas possuem um poder muito forte, pois trata-se de uma religião primitiva e quanto mais primitiva, mais pura a energia com a qual se trabalha. Acredita-se que estas entidades já eram reverenciadas pelos povos Atlantes (Opa, alguém falou em Mago: O Despertar?).

O vodu é dividido em duas vertentes: O Rada e o Petro. As cerimônias Rada invocam loas protetores, e tem seus rituais baseados em origem beninense e nigeriana. Já as cerimônias Petro invocam loas agressivos, e por isso é muitas vezes confundido com magia negra, principalmente pelos padres católicos que eram contrários as práticas religiosas dos escravos africanos. Os rituais Petro foram trazidos para o Haiti em 1768, por um houngan (sacerdote do vodu) espanhol chamado Dom Pedro, que também introduziu vários outros ritos entre os escravos.

A tradição do vodu diz que os rituais são sempre dirigidos pelos houngans e mambus, os respectivos sacerdotes e sacerdotisas do vodu. Segundo a ficção sobre o tema, é dito que usando da magia branca eles curam pessoas doentes ou machucadas; usando magia negra eles conseguem fazer um morto retornar à vida como zumbis para trazer problema ou até mesmo a morte a um inimigo. Além disso é dito que eles podem fazer “bonecas” com as quais controlam o corpo de uma pessoa a distância, podendo fazê-la sofrer e até morrer.

Em um cenário brasileiro sobre o tema é possível substituir o vodu pela macumba, como é chamado genericamente o conjunto de práticas africanas que se misturaram com a religião católica em locais como Brasil, Venezuela, Colômbia, República Dominicana e Cuba, onde é chamada de Santeria, que dizem ter o poder de praticar magia através de rituais feitos em terreiros e encruzilhadas através de sacerdotes que se comunicam com os mortos, chamados de macumbeiros. No Brasil sua prática é forte na Bahia, principalmente em Salvador (que seria como uma Nova Orleans nacional, até por conta do carnaval, assim como a cidade da Louisiana que tem seu famoso carnaval chamado de Mardi Gras), mas também no norte do país, onde se misturou com as práticas dos índios que viviam na região. Lembrando que isso seria sua versão ficcional, não confundindo com o Candomblé e a Umbanda, religiões com vários praticantes no Brasil.

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Um feiticeiro vodu e suas pinturas.

Antes de falar dos RPGs que usam o vodu em seus cenários gostaria de lembrar alguns filmes que podem inspirar os mestres a montar suas aventuras. Entre os meus preferidos está Coração Satânico (Angel Heart – 1987) que tem Robert de Niro e Mickey Rourke nos papéis principais. Rourke é um detetive particular contratado para encontrar um cantor desaparecido e acaba tendo que entrar num mundo repleto de magia negra e voodoo. Outro filme excelente, e que tem um final surpreendente, é A Chave Mestra (Skeleton Key – 2005) com Kate Hudson no papel principal interpretando uma jovem que vai cuidar de um senhor idoso numa casa nos arredores de New Orleans, em um local onde foram praticadas muitas cerimônias místicas de vodu no passado. No início ela não acredita na magia, até se ver envolvida em um grande problema. Suspense até o fim. Um dos filmes mais famosos sobre vodu é Adoradores do Diabo (The Believers – 1987) com Martin Sheen (o pai de Charlie Sheen da série de TV Two and the Half Men) investigando um brutal assassinato de dois jovens, quando perde o equilíbrio mental. O psicólogo da polícia descobre que a insanidade do colega está diretamente relacionada com um culto religioso especializado em sacrifícios humanos.  Outro filme que pode dar o clima para uma boa sessão de RPG é A Maldição dos Mortos Vivos (The Serpent and the Rainbow – 1988) dirigido por Wes Craven e tendo Bill Pullman como um pesquisador de Harvard que é enviado ao Haiti em busca de um pó que teria o poder de ressuscitar pessoas. Em sua viagem ele adentra o submundo de magia negra, zumbis e rituais sangrentos. Um bom filme filmado no Haiti e alegadamente baseado numa experiência real. Não vou ficar aqui dando spoillers sobre estes filmes porque acho interessante para os que gostarem do artigo peguem os filmes para assistir.

Na TV o vodu foi abordado na terceira temporada da série American Horror Story, que teve como subtítulo Coven. A trama mostra bruxas que buscam sobreviver e resistir a extinção, que com o passar dos anos vem diminuindo suas fileiras. Os acontecimentos ocorrem principalmente na cidade de Nova Orleans, considerada a capital americana do vodu, e também retrata uma personagem histórica do passado escravocrata da cidade: Marie Laveau, uma famosa praticante de vodu, sendo conhecida até hoje como a rainha do vodu. Clicando AQUI você será direcionado para um site em português contando um pouco sobre a série e descrevendo alguns rituais vodus que podem ser utilizados em suas aventuras, independente do sistema de regras. Vejam um trailer da série.

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Doutor Vodu da Marvel.

Também nos quadrinhos o vodu já foi abordado através de várias histórias e heróis. Tanto a DC Comics como a Marvel, as maiores do ramo dos quadrinhos, já criaram personagens que se utilizam da magia vodu para usar como seus poderes. Um dos mais icônicos sem dúvida é Papa Midnite, que fez sua primeira aparição nas páginas da revista Hellblazer da linha Vertigo da DC Comics. Ele é um gangster de Nova York, e mestre do vodu, que utiliza seus conhecimentos místicos para levar vantagem financeira. Este personagem também apareceu no filme “Constantine – 2005“, baseado nas histórias em quadrinhos de John Constantine, o Hellblazer, onde foi interpretado pelo ator Djimon Hounsou. Também da DC vem a personagem Vodu, ex-integrante da equipe WildC.A.T.S., mas que na verdade é uma alienígena de uma raça chamada de Daemonitas, nada tendo a ver com a tradição de vodu que estamos nos referindo. Bem mais característico é o Irmão Vodu, personagem da Marvel criado em 1973 por Lein Wein, o mesmo criador do Monstro do Pântano. Ele possui numerosos poderes místicos derivados dos Loa, os deuses espíritos do vodu. Depois que ele substituiu o Doutor Estranho, assumindo o manto de Mago Supremo do universo Marvel, passou a se chamar Doutor Vodu. Entre os poderes do Irmão Vodu, caso queiram fazer uma adaptação para RPGs de supers estão: Controle do Fogo, Controle de Plantas e Animais, Força Ampliada, Hipnose e Névoas Místicas.

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Shadowman, um Loa super-herói.

Outras editoras também já abordaram o vodu, como a Mythos Editora com seu personagem Zagor que em sua edição de julho de 2000 teve uma edição especial chamada Vingança Vodu, e também em algumas histórias de Hellboy onde o vodu é citado pelo “vermelhão”. A Valliant a partir de 1992 passou a publicar as histórias de Shadowman, criado por  Jim Shooter e Steve Englehart. Ali conhecemos Jack Boniface, um jovem negro que segue uma tradição de família de ser hospedeiro de um Loa que o transforma em Shadowman, para proteger os vivos das ameaças do Mundo dos Mortos e do Mestre Darque, um poderoso mago que deseja destruir o mundo. Na série vemos muitas referências ao vodu, seus rituais, loas e magia.

O RPG já abordou o vodu em vários sistemas, como GURPS, Mago: O Despertar, Witchcraft, All Flesh Must Be Eaten, Trevas, Rastro de Cthulhu, O Desafio dos Bandeirantes, entre outros. Iremos comentar sobre eles em outros artigos que darão continuidade a este. Então, até a próxima.

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4 pensamentos sobre “Especial Vodu: A Magia Vodu Ficcional.

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