Vampiros De Todos Os Tipos.

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A capa do livro.

GURPS, publicado pela SJ Games, provavelmente é um dos sistemas de RPG mais polêmicos do planeta. Enquanto existem jogadores e mestres que simplesmente amam seu sistema de regras, existem o mesmo número de jogadores e mestres que o odeiam e adoram criticá-lo. Desde o famoso comentário “tem regras até para cavar buraco” passando pelo desprezo que alguns nutrem pelo seu criador, Steve Jackson, GURPS tem sobrevivido a tudo isso e ainda consegue ter uma legião de fãs espalhados pelos cinco continentes. Eu particularmente adoro o sistema. Até hoje lembro com saudades da campanha de GURPS Conan que eu narrava na extinta Livraria Capixaba todo sábado pela manhã lá pelos idos dos anos 90. Também gosto de lembrar as aventuras jogadas com GURPS Artes Marciais e GURPS Voodoo: The Shadow War, livros que traziam coisas novas para um mercado de RPG viciado em cenários de fantasia medieval.

Os suplementos de GURPS estão com certeza entre meus livros de RPG favoritos e os quais não me desfaço de jeito nenhum. GURPS Illuminatti, GURPS Horror, GURPS Undead, estão entre os meus preferidos, mas o que eu mais gosto com certeza é GURPS Blood Types, um livro que já foi usado por mim várias vezes, inclusive em conjunto com outros sistemas de RPG.

GURPS Blood Types procura detalhar a lenda do vampiro e do vampirismo através do tempo e de várias culturas espalhadas pelo mundo em suas 128 páginas de muita informação. Seu foco é falar dos vampiros e os tipos que existem contadas através das lendas de vários povos do planeta. Ele procurou pegar carona no sucesso de “Vampiro: A Máscara”, RPG que fazia muito sucesso na época e angariava cada vez mais jogadores. Inclusive logo depois GURPS converteu toda a linha do Mundos das Trevas Clássico para seu sistema, surgindo GURPS Vampire: The Mascarade, GURPS Mage: The Ascension, e GURPS Werewolf: The Apocalipse. GURPS Blood Types foi escrito por Lane Grate, publicado em 1995, e o livro trás desenhos feitos pelos gênios Tim Bradstreet e Dan Smith, dois desenhistas bem conhecidos no meio do RPG.

O livro começa descrevendo a história mística por trás da lenda do vampirismo, como as lendas do antigo Egito, do Império Romano, dos Bálcãs, ou personagens de obras góticas do final do século XIX que são usados para ilustrar e tentar compreender o mito do Vampiro. As Strix, que hoje são usadas no novo cenário de “Vampiro: O Réquiem” já eram mostrados neste livro, assim como o vampiro moderno, parecidos com Lestat dos romances de Anne Rice e suas crônicas vampirescas. Até mesmo vampiros futuristas, no estilo cyberpunk, com implementos cibernéticos, são mostrados com suas estatísticas completas e os componentes que podem ser usados. Além disso o livro trás sugestões de uso combinado com outros suplementos de GURPS, como o GURPS Japan, GURPS Império Romano, e até mesmo GURPS Supers, permitindo a criação de um vampiro que irá combater o crime onde ele estiver. Um verdadeiro Homem-Morcego!

GURPS Blood Types descreve os vampiros divididos basicamente em três grupos:

  • Vampiros mortais – Seres vivos que se tornaram vampiros através de algum pacto com as forças das trevas e não são mortos-vivos;
  • Vampiros mortos-vivos – Criaturas que voltaram do mundo dos mortos para atormentar os vivos;
  • Vampiros espirituais ou de outros mundos – Criaturas de outras dimensões ou de outros planetas que se misturam entre os humanos, vivendo como parasitas, e se alimentando de nós.
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Vai encarar?

Além disso separa os vampiros por tipo de criação, como morte, epidemia, pactos, costumes funerários, sexo, etc  Personagens como Lilith, Conde Drácula, Condessa Bathory, Lord Byron, Lord Ruthven, são citado ao longo do livro, além da descrição de casos ditos “reais” de vampirismo como o de Arnold Paole, um soldado que viveu na Sérvia do século XVIII que alega ter sido atacado por um vampiro quando estava a serviço no front na Turquia, ou de Peter Plogojowitz, camponês que vivia na vila de Kisilova, também na Sérvia, que morreu em 1725 mas era visto constantemente pelo vilarejos locais inclusive com relatos de ataques cometidos por ele após sua morte, se tornando o primeiro vampiro oficialmente registrado e documentado quando o governo local abriu uma investigação sobre ele.

O livro dá sugestões dos tipos de personagens que estarão presentes na aventura, com descrição de vantagens, desvantagens e skills necessários para cada um apresentado. Caçadores de vampiros, investigadores particulares, aristocratas, exploradores, arqueólogos e médicos, são algumas das possibilidades de personagens, além de uma enorme gama de arquétipos que são apresentados para povoar uma aventura ou campanha de caça a essas criaturas. Mas existem também a possibilidade da criação de personagens vampiros que tentam se livrar desses caçadores que os perseguem ou enfrentar as criaturas da noite que o transformaram. As possibilidades são muitas.

A parte mais legal do livro é sem dúvida seu bestiário, quando disseca todos os mitos de vampiros espalhados pelo mundo ou pela literatura de horror. São vampiros africanos, asiáticos, do leste europeu, da América Central, da Roma Antiga, meios-vampiros, no estilo Blade, e alienígenas, são apenas alguns presentes nas 31 páginas que detalham suas lendas, poderes, fraquezas, modus operandis e como criá-los para o jogo. Além disso no final do livro há várias dicas para a criação de sua campanha ou aventura. As dicas ajudam a definir os tipos de vampiros presentes a campanha, se serão os jogadores vampiros ou humanos, a atmosfera da campanha e muito mais. Um capítulo valioso e que muitos mestres, sejam de GURPS ou não, deveriam ler.

Infelizmente o livro não existe mais para impressão, mas pode ser adquirido através de PDF. Quem quiser comprá-lo pode clicar AQUI. Quem quiser dar uma conferida em um preview do PDF antes de comprá-lo clique AQUI e baixe uma mostra de 12 páginas.

Mas você deve estar se perguntando: “Como que uso isso em minha aventuras se nem jogo ou gosto de GURPS?”. Bom, primeiro não precisa gostar de GURPS para saber que seus suplementos podem ser usados genericamente para qualquer sistema. A descrição de cenários dos livros suplementos de GURPS enriquecem qualquer RPG, independente do seu sistema de regras. Segundo que qualquer mestre ou jogador competente consegue converter as regras de GURPS para aquele que está sendo usado por seu grupo. Para os amantes do Clássico Mundo das Trevas por exemplo, existe até mesmo um site inteiramente dedicado a conversão das regras, fichas de personagens prontos, house rules e muito mais. Cliquem AQUI e confiram.

Mas além disso podemos das algumas dicas para usar GURPS Blood Types em conjunto com alguns RPGs da moda, Vejamos:

Guerra dos Tronos RPG

Que tal usar vampiros em sua campanha de Guerra dos Tronos, RPG trazido pela Jambô Editora? Os jogadores podem ser cavaleiros de casas menores enviados pelo Rei Jofrey, seguindo os informes dos seus espiões, além do mar extremo para encontrar a jovem Targaryen, que estaria reunindo um exército para tomar de volta o Trono de Ferro, e matá-la, mas nessa nessa viagem por terras tão exóticas encontrem uma cidade que é controlada por vampiros, no estilo dos Ch’iang Shich. Eles são vampiros encontrados por toda a China e Mongólia, que são um perfeito arquétipo do vampiro asiático. Eles possuem garras, são mais fortes que um ser humano normal, são imortais e se regeneram dos seus ferimentos, além de mudarem de forma para corvos. Eles possuem dependência de sangue diariamente e precisam dormir em caixões ou em uma tumba. São vulneráveis a fogo e repelidos por alho. Além disso possuem o poder de colocar seu alvo para dormir, infectá-lo com doenças, encantá-lo para seguir suas ordens e podem criar um nevoeiro para se esconder de seus inimigos.

Ou quem sabe os jogadores são soldados da muralha que descobrem que os Caminhantes Brancos são uma espécie de vampiros, ou são controlados e criados pela magia de um vampiro muito antigo que vive além da muralha e que pretende estender seu poder além dela, para o sul da terra de Westeros. Talvez tenham encontrado seu covil por engano e após terem matado algum de seus vampiros favoritos e ele quer vingança, enviando um grupo de caminhantes contra a muralha.

Este Corpo Mortal

Em Este Corpo Mortal a criação de personagens Imortais já nos permitem criar um vampiro de maneira fácil e rápida, mas qual vampiro iríamos criar? Talvez um vampiro no estilo Gótico seria o melhor, porque este arquétipo é o que ficou consolidado como o vampiro tradicional dentro da cultura popular do mito. Ele é a própria encarnação do Conde Drácula e sua vantagem e poder ser adicionado a qualquer período histórico, mesmo antes de Vlad Tepes ter se transformado em vampiro.

O vampiro gótico tem como características ser muito mais forte que um ser humano normal, ser imortal e invulnerável, além de poder se transformar em vários tipos de animais diferentes, como morcego, rato, cachorro, lobo e até névoa. Ele pode controlar animais e o tempo, além de ser capaz de transformar outras pessoas através de sua mordida. Como desvantagem ele não pode entrar em qualquer lugar sem ser convidado, tem repulsa a alho e a símbolos religiosos, não possui reflexo e pode ser morto através de decapitação. Caso uma estaca seja fincada em seu coração ele fica em um estado de paralisia. Ele precisa diariamente de sangue para manter sua não-vida. Ele precisa também dormir em seu solo natal, por isso sempre viaja transportando caixões cheios de terra de sua cidade natal.

Dust Devils

Skinner Sweet, um vampiro americano.

Skinner Sweet, um vampiro americano.

Imaginem vampiros no velho oeste. Parece legal, né? Agora imagem vários vampiros diferentes neste cenário lutando entre si pelo poder. Pronto, você tem a premissa básica de “Vampiro Americano“, revista em quadrinhos publicadas pela linha Vertigo da DC Comics escrita por Scott Snyder, desenhadas pelo brasileiro Rafael Albuquerque, e que teve algumas de suas edições roteirizadas pelo famoso escritor de contos de terror, Stephen King. Em Vampiro Americano há uma luta entre os vampiro europeus, considerados muito antigos, contra os novos, surgidos em solo americano. Vampiros no estilo Nosferatu cairiam bem para representarem o velho vampiro europeu. Imortalizado no filme com o mesmo nome de 1922, do diretor Friedrich Murnau, que é uma adaptação do livro Drácula, de Bram Stoker, o filme mostra o conde Graf Orlock, vampiro que se muda dos Montes Cárpatos para Bremen, na Alemanha, espalhando o terror pela cidade enquanto tenta atrair a jovem Ellen, por quem está apaixonado. Este arquétipo é ótimo para retratar os antigos vampiros europeus descritos em várias lendas, assim como também o Vampir e os Vyrolakas, Todos eles surgidos das lendas do leste europeu. Já para representar os vampiros americanos teríamos os vampiros modernos, que são os mostrados em RPGs como Vampiro: A Máscara ou O Réquiem, que estão adaptados ao mundo atual, já que muitos nasceram há poucos anos. O livro procura tratar esses vampiros modernos como os descritos em filmes mais modernos, como “Entrevista com o vampiro“, que teve Tom Cruise e Brad Pitt nos papéis principais.

Um mestre criativo pode até mesmo fazer uma longa campanha mostrando a trajetória de um grupo de uma linhagem de caçadores de vampiros que começariam no Japão feudal, e para isso usariam as regras presentes ao livro sobre este cenário adicionando os vampiros Gaki, passando depois pelo velho oeste, usando a premissa descrita acima, pelos dias atuais com o cenário de Anjos do Concreto e os vampiros modernos, e finalizando com o cenário de Desejo de Matar, onde seriam apresentados os vampiros High-Techs, meios cyberpunks. Talvez a campanha narre vários grupos através da história tentando por fim ao mesmo vampiro e como ele tem sobrevivido a eles por todo este tempo. Ficaria bem legal.

Savage Worlds

Com o Compêndio de Horror é possível criar boas aventura sobre caça a essas criaturas, mas o mestre pode também adicionar alguns elementos bem legais a campanha, criando vampiros diferentes para atormentar aventureiros desavisados. Uma aventura no estilo pulp, como pede o cenário, ficaria legal. Em Blood Types é possível encontrar a descrição de vários vampiros da América do Sul e Central, como o Loogaroo, do folclore caribenho, ou o Tlalicque, da cultura mexicana. Um grupo de exploradores ou arqueólogos que por ventura estivessem se embrenhado por lugares remotos desses países, em busca de achados arqueológicos, poderiam se deparar com as tumbas dessas criaturas e libertá-las sem querer. Estes vampiros podem usar magia e provocam pesadelos em seus alvos os quais eles podem colocar para dormir. Eles podem assumir a forma de bolas de fogo e são repelidos por alho e são vulneráveis a sal. Eles precisam de sangue humano para sobreviver.

Vampiros no Brasil

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O “beijo” do vampiro.

Blood Types também nos mostra vampiros africanos, que podem ter vindo para o Brasil junto com os escravos africanos escondidos nos navios, matando um por um nos porões e deixando suas vítimas em desespero, sabedores que uma criatura sobrenatural estava ali escondida nas sombras e atacando quando com fome. Entre eles temos o Adze, um vampiro sem forma que é originário de Ghana, que se esconde das vistas humanas na forma de insetos, de preferência moscas, mas que quando precisa também usa forma humana. Existe também o Chordewa, conhecido pelas tribos africanas como um poderoso feiticeiro que usava de projeção astral para caçar suas vítimas. Além deles temos nosso próprio vampiro, as Jaracacas que são uma variação das Lamias da Grécia antiga. As Jaracacas já foram citadas por mim em outro artigo, quando apresentei os Apoanu-Apyabaiba, uma tribo de xamãs brasileiros presentes no RPG Witchcraft da Eden Studios. Eles são mais encontrados no norte do país, próximo a região do Amazonas e sua floresta. Eles adotam a forma de uma serpente quando vão caçar e invadem as cabanas de suas vítimas a noite. Segundo a tradição indígena, suas presas favoritas são mulheres que estão amamentando, de quem se alimentam do leite materno. Se ela gostar do sabor do leite, ela voltará, de novo e de novo. As Jaracacas produzem secreções no peito de suas vítimas que as levam a insanidade com o tempo. Caso sejam atacadas por alguém, as Jaracacas podem esguichar o seu veneno a vários metros de distância. Esse vampiro só bebe sangue se não conseguir o leite materno. Elas podem controlar outros répteis e são imortais. A única maneira de derrotar uma Jaracaca e decapitando-a. Outra boa ideia para criar vampiros brasileiros é usar as Bruxsas, vampiras bruxas originárias de Portugal que se transformaram por usar magia negra. Elas gostam de beber sangue de crianças e geralmente as usam em seus rituais. As últimas Bruxsas podem ter deixado Portugal por conta da Inquisição e encontraram nas Terras de Santa Cruz, o atual Brasil, um refúgio perfeito para se esconderem dos caçadores.

Vampiro: A Máscara

Uma boa adição ao cenário é usando as Strix, bruxas vampiras originárias da Roma Antiga. Elas podem assumir a forma de corujas e são invulneráveis a maioria de formas de dano. Um grupo de vampiros pesquisadores podem achar pedaços de alguns livros antigos que entram em contradição com o descrito no Livro de Nod e viajam até Roma para saber mais sobre as Strix, e acabam descobrindo que a história de que Caim foi o primeiro vampiro pode ter sido uma grande mentira. Permitam que elas usem Taumaturgia da mesma maneira que os Tremere e também Presença e Dominação, todas em altos níveis.

Chamado de Cthulhu

Cansado de enfrentar os Mitos? Que tal dar de cara com uma criatura da noite? Talvez seja o momento de enfrentar um vampiro alienígena. O vampiro alienígena pode ter chegado a Terra de várias maneiras diferentes ou vindo de outras dimensões passando por um portal dimensional que agora está fechado, e que precisa do alinhamento correto de planetas para se abrir novamente. Ele pode até mesmo ter angariado um grupo de cultistas a sua volta com a promessa de vida eterna ou viver ao lado dele no seu mundo de origem. Seus cultistas farão tudo o que ele ordenar, até mesmo trazer vítimas para que ele possa saciar sua sede e cumprir com sua promessa no futuro. Uma aventura no estilo da série “True Detective” seria bem interessantes, com os detetives tendo que lidar com o desaparecimento de várias crianças da região onde moram.

Em suma, GURPS Blood Types é um suplemento bem legal e que dá muitas ideias de como usá-lo mesmo que você não curta o sistema de regras do jogo. A sua generalidade permite criar aventuras com as dicas dadas neste e em vários outros suplementos da linha de GURPS que vale a pena ser lido por mestre e jogadores. Experimente que vocês vão gostar, mas leia com alho em volta da cama e um crucifixo na mão. Nunca se sabe, né?

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7 pensamentos sobre “Vampiros De Todos Os Tipos.

  1. Andre, belo artigo.

    Resgatar Blood Types foi um acerto. Sem duvida, é um dos melhores suplementos de GURPS e mostra toda a versatilidade do sistema, além de ser uma fonte muito boa de informação para qualquer campanha.

  2. Bem legal os possíveis vampiros existentes no Brasil. Sempre bom ter este tipo de conhecimento e usar como artifício para manter a linha de mistério e também manter os jogadores “na linha”. Parabéns!

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