Usando Alguns Mitos Nacionais Em Sua Aventura.

Sem Título-1

Lá vamos nós outra vez tentando tirar um pouco do preconceito sobre o uso de nossa mitologia nos cenários de aventuras dos mestres brasileiros. Dessa vez irei abordar o uso de alguns dos nosso mitos como adversários para serem explorados nas aventuras de RPG.

Um guerreiro curupira montado em um javali selvagem.

Um guerreiro curupira montado em um javali selvagem.

Acho que inicialmente o que faz com que mestres e jogadores não queiram usar nossos mitos é a maneira infantilizada que eles foram apresentados à nós durante boa parte de nossas vidas, principalmente nas escolas onde o dia do folclore ou a leitura feita de nossos escritores, principalmente Monteiro Lobato, não nos faziam temer esses mitos, mas achá-los engraçadinhos e divertidos. Sobre esse assunto especificamente fiz um artigo que vocês, caso ainda não tenham lido, podem ver clicando AQUI.

A solução seria então modernizar nossos mitos ou dá-los outra roupagem, principalmente se queremos fazer uma aventura no estilo horror, com uso de magia urbana, ou até mesmo de fantasia medieval. Com a chegada do D&D Next é tão difícil assim imaginar um mundo de fantasia medieval onde ao invés de elfos da floresta os jogadores enfrentariam guerreiros curupiras? Ao invés de goblins poderiam enfrentar tribos de sacis montados em mulas-sem-cabeça que atacam os povoados? E o que dizer de sua busca por exterminar aquele dragão vermelho que pode ser na verdade a Cuca? Como assim? Não sabia que a Cuca é na verdade um dragão e você sempre achou que ela era uma velha com cara de jacaré? Então leia o restante do artigo e saiba mais sobre a Cuca.

E se a Cuca te pega?

Um dos principais seres mitológicos da cultura brasileira, a Cuca, foi retratada como uma velha bruxa com cara de jacaré e unhas pretas e longas que assustava as crianças nas obras do “Sítio do Pica-Pau-Amarelo” de Monteiro Lobato. A minha dúvida era de onde havia surgido o mito original antes de Monteiro Lobato tê-lo infantilizado, e porque o nome Cuca? A resposta para minhas dúvidas estavam do outro lado do Atlântico.

São Jorge derrotando a Cuca.

São Jorge derrotando a Cuca.

A origem desta lenda está num dragão, a “Coca”, das lendas portuguesas e espanholas. Nestes países ela era representada por um dragão que havia sido morto por um santo. Sabe que santo é esse? Ele mesmo que você está pensando: São Jorge! E o dragão que ele matou é a Cuca, ou Coca como era chamada nos países ibéricos. Na verdade ele matou uma da Cocas. Segundo a lenda, existiam duas Cocas e só se sabe do destino de uma delas. Talvez, a outra tenha fugido para o Brasil para escapar da perseguição de São Jorge ou de outros guerreiros caçadores de dragões.

Em Portugal Coca, ou Coco como também é chamado em algumas regiões, significa uma espécie de fantasma, bruxa ou bicho-papão com que se assustam meninos. A representação da Coca era feita com uma panela ou abóbora oca na qual se faziam três ou quatro buracos, imitando olhos, nariz e boca, e que se colocava uma luz dentro e deixava-se, durante a noite, num lugar bem escuro para assustar crianças e pessoas que passavam. Sim, exatamente o que você está pensando. A famosa abóbora das festas de halloween, ou dias das bruxas como é conhecido no Brasil, chamadas de Jack-o’-lantern nos EUA, tem origem na Coca e é uma tradição ibérica e não irlandesa como muitos pensam! Mas por que essa representação? Porque logo depois de matar a Coca, ou Cuca ou Coco, São Jorge levou sua cabeça, para provar que havia matado o monstro, espetado em sua lança. Daí também deriva o fato de chamarmos cabeça de cuca ou coco aqui no Brasil. Quando os portugueses chegaram no Brasil e viram a fruta coco perceberam que ela lembrava uma cabeça devido aos três buracos que são vistos nela. Achavam que se assemelhavam com os olhos e a boca que eram feitas nas abóboras para representar o Coco em Portugal e, por isso, deram esse nome a fruta.

Que tal a Cuca como um monstruoso Jacaré devorador de pessoas?

Que tal a Cuca como um monstruoso Jacaré devorador de pessoas?

De posse de uma informação como essa podemos imaginar uma quest sobre a Cuca em nossas histórias, sendo elas de fantasia medieval ou até mesmo moderna. Imaginem a Cuca como sendo um dragão devorador de donzelas nos dias atuais, assim como descrito em sua lenda original, e não uma bruxa feia que persegue criancinhas. Ela pode ser uma criatura poderosa que se mantêm escondida para fugir da perseguição dos Cavaleiros da Ordem de São Jorge, mas que de vez em quando precisa saciar sua fome por mulheres jovens e bonitas e sai para caçar. Ela talvez tenha até mesmo seguidores ou um culto que fica responsável por mantê-la escondida dos olhos de todos (imagina a dificuldade de se manter um dragão escondido nos dias atuais) e levar as jovens em sacrifício como ela ordena. Lembrando que o fato da Cuca ter sido apresentada em forma de jacaré por Monteiro Lobato era porque além de não termos histórias de dragões em nossa cultura o jacaré era o animal mais próximo que havia em nossa fauna que lembrava a criatura morta por São Jorge. Ao invés de ser um problema isso pode ser bem interessante de ser explorado nas aventuras, como por exemplo uma aventura onde membros da Ordem de São Jorge estão a procura da Cuca que se esconde nas profundezas do Pantanal mato-grossense aterrorizando as populações locais. Longe de ser apenas um animal enorme e assustador ela seria uma criatura mágica inteligente capaz de controlar outros animais e os seres místicos da região, como Caiporas, Curupiras, etc. Ou quem sabe não foi ela quem deu origem aos Mokolés, licantropos descritos no RPG “Lobisomem, O Apocalipse“, que são meio homens e jacarés?

O Inimigo

O Cramunhão fazedor de acordos.

O Cramunhão fazedor de acordos.

Outro adversário pouco explorado em nossas aventuras é o Cramunhão, o Pé-de-Bode, o Inimigo, tão citado nas pregações religiosas aqui no Brasil como provocador de todo o mal. Não se trata de explorar o demônio original, Satã, como descrito nas religiões semitas, mas a versão brasileira do demônio, aquele que está nas encruzilhadas para fazer um trato com os mais desesperados que vendem sua alma em troca de riqueza ou poder terreno. No imaginário popular ele é um homem charmoso, muito bem vestido, de preferência de branco com chapéu panamá, que circula pela noite seduzindo as mulheres ou incitando os inocentes a cometer crimes. Ele não é um ser único, parecendo existir mais de um ao mesmo tempo, sendo capaz de assumir várias formas diferentes e estar em lugares diferentes. Existe até mesmo a famosa versão do Demônio-na-Garrafa, onde um desses demônios é aprisionado em uma garrafa por um feiticeiro para que ele realize alguns de seus desejos. Talvez quando conseguir sair ele não fique assim tão satisfeito com seu captor.

O uso dele em uma campanha pode ser feita de várias maneiras, desde sendo um inimigo em potencial ou até mesmo um aliado ocasional, que faz acordos em troca de ajuda ou informação. Ele tanto pode ser invocado, o que não o deixaria muito satisfeito, ou encontrado em alguma encruzilhada. Ele é malicioso e muito inteligente, não sendo enganado facilmente. A respeito desse inimigo em particular aconselho a leitura do artigo “O Barroco” postado no excelente blog “RPG Nacional” que descreve um estilo de cenário tipicamente brasileiro e as várias manifestações dos Demônios Barrocos. Para ler o artigo clique AQUI.

Nossos pequenos duendes

Outras criaturas que temos a tendência de desprezar são os nossos “duendes”, digamos assim. Sei que muitos mestres e jogadores adoram enfrentar goblins, orcs e trolls, todos saídos da mitologia anglo-saxônica, mas ficam com preconceito no uso dos curupiras, caiporas e sacis da cultura brasileira, mesmo que no meu entender sejam a mesma coisa. Digo a mesma coisa porque tanto em um caso como no outro são seres que vivem na floresta e são guerreiros, mas enquanto o primeiro grupo foi explorado em batalhas épicas no grande romance de literatura fantástica “Senhor dos Anéis” de Tolkien, os nossos foram usados na literatura infanto-juvenil de Monteiro Lobato e no máximo assustavam criancinhas de um sítio.

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Saci Aíba. E aí? Encara?

O saci por exemplo surgiu de uma mistura da mitologia africana com a mitologia do trasgo de Portugal (não, não tem nada parecido com a criatura de Harry Potter!). Os tragos são, segundo as tradições orais de Trás-Os-Montes, região de Portugal, criaturas rebeldes, de pequena estatura, que usam gorros vermelhos e possuem poderes sobrenaturais. Eles pregam peças, fazem maldades: partem louça, quebram vidros, arrastam móveis, espalham a fruta, mudam os objetos da casa de lugar. Eles são, segundo as antigas crenças, pequenas “almas penadas” de crianças que não foram batizadas e que retornam para amaldiçoar os vivos. Por este motivo, trasgo pode também significar: aparição fantástica, espírito, diabrete, gênio, correspondendo aos famosos duendes, gnomos ou elfos da mitologia dos países nórdicos, mas sem o destaque da mídia desses outros. A mitologia africana o transformou em um negrinho que perdeu uma perna lutando capoeira, imagem que prevalece até os dias de hoje. Herdou também, da cultura africana, o pito, uma espécie de cachimbo. Infelizmente Monteiro Lobato fez o favor de transformar esse personagem em uma criatura brincalhona, que apenas aprontava “traquinagens” que deixavam os outros furiosos, mas nunca com medo. Diferente do que fez Altemar Domingos com o Saci Aíba, por exemplo, dando a ele uma visual assustador em seu trabalho com o personagem em quadrinhos “Jaguara“, ou como vi recentemente com um grupo do facebook que estão produzindo um jogo de cartas chamado “Batalha de Mitos“, que espero em breve poder estar comentando sobre ele com vocês. Eles deram uma roupagem moderna e assustadora ao mito, tornando-o muito mais interessante.

Como usá-lo em um jogo? Podem ser que estejam sob o comando de uma criatura mais forte como a Cuca ou a Matinta Perêra agindo para elas como agentes em suas missões ou como assombrações que precisam ser expulsas de um determinado lugar, e que ao invés de simplesmente pregar peças poem em risco a vida das pessoas. Não é necessário também que sejam imaginados apenas nas áreas mais afastadas das grandes cidades, já que a cidade do Rio de Janeiro, apenas para citar um exemplo, tem a Floresta da Tijuca que serviria como local de origem ou onde se escondem. Além disso podemos imaginar também um grupo de sacis agindo em uma favela como a da Maré por exemplo, onde as “brincadeiras” provocadas por eles levariam os traficantes locais a uma guerra. Tente imaginá-los como algo diabólico, malévolos, com uma vasta cabeleira arramada que faz lembrar um gorro, e ao invés de pequenas criaturas imagine-os como criaturas musculosas com mãos e pés em forma de garras afiadas. Pronto, duvido que seus jogadores voltem a imaginar o saci como uma criatura engraçadinha.

Além deles temos também a Mula-Sem-Cabeça, que pode ser uma criatura do inferno, ou até mesmo a montaria do Cramunhão, e o Boi-Tatá, uma enorme cobra de fogo, capaz de engolir um homem inteiro, e que já foi até relatada pelo Padre, e agora santo brasileiro, José de Anchieta no século XVI em seu diário: “Há também outros (fantasmas), máxime nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados baetatá, que quer dizer cousa de fogo, o que é o mesmo como se se dissesse o que é todo de fogo. Não se vê outra cousa senão um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os, como os curupiras; o que seja isto, ainda não se sabe com certeza.” (in: Cartas, Informações, Framentos Históricos, etc. do Padre José de Anchieta, Rio de Janeiro, 1933).

Caso você mestre queira inovar em suas aventuras pesquise sobre a mitologia africana e ibérica. Muitas de nossas lendas e mitos vem de lá, além de somente dos índios que viviam aqui antes da chegada dos europeus. Em uma próxima postagem sobre assunto irei abordar algumas das lendas e mitos latino-americanos, caso os mestres queiram uma aventura continental. E caso estejam fazendo alguma aventura com a temática nacional compartilhe conosco nos comentários abaixo.

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10 pensamentos sobre “Usando Alguns Mitos Nacionais Em Sua Aventura.

  1. Caraca, fantástico, André! Eu já tinha usado uma tribo de Caiporas amazonas numa aventura, mas você me deu muitas ideias e ainda mais vontade de usar a mitologia brasileira. Além desses aí, tem o Mapinguari, que é um puto dum monstro assustador.

  2. Adorei o conteúdo do Blog. Como conversamos hoje no Dungeon Capixaba, estou elaborando meu trabalho de graduação em um livro de aventura pronta (no estilo das aventuras de First Quest), baseado no período colonial do Brasil e ambientado no cenário capixaba, com lendas locais, inimigos do folclore e o principal, NPC’s que fizeram parte da história do ES, com o background real do personagem… seu blog está me ajudando bastante, tanto em material quanto em ideias. Muito obrigado!

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