O Uso Dos Elementos Místicos Nacionais Em Nossas Histórias.

Sem Título-1

Li um dia desses um post de Brega Presley, blogueiro do site “Saia da Masmorra“, em seu grupo no facebook, no qual ele comentava ao voltar do Encontro de RPG Marginal que estava encantando com uma mesa da qual havia participado. O mestre Max de Carvalho havia utilizado elementos do candomblé com maestria na aventura, segundo ele.

Na mesma hora respondi dizendo que nós mestres tínhamos que usar mais estes elementos místicos nacionais em nossas histórias. Mas a partir daí começaram a vir na minha mente um monte de reflexões sobre o porque não usamos o rico histórico místico e lendário que temos da nossa cultura em nossas aventuras de RPG. Entre preguiça e falta de conhecimento sobre nossa cultura acabei encontrando algumas explicações do porque não os usamos que gostaria de debater aqui com vocês. Vamos a elas:

Aculturação

Caipora_02

Caipora, demônio das matas.

Acho que o primeiro grande problema é esse. Estamos acostumados a valorizar o que vem de fora e desvalorizar o que temos em nossas terras. Crescemos acostumados a valorizar as lendas e as histórias estrangeiras, como a lenda do vampiro, lobisomem, múmias, fadas, elfos, bruxas europeias, e quando ouvimos falar dos nossos sacis, curupiras, caiporas, botos, demônio na garrafa, achamos bobo ou coisa de criança. Muito disso parte um pouco da nossa história literária, principalmente na época de Monteiro Lobato que suavizou muito nossas lendas para introduzi-las em seu universo infantil do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. As lendas brasileiras em sua maioria surgiram dos índios ou trazidas pelos escravos africanos e tinham um elemento sobrenatural e assustador com a intenção de dar lições aos mais jovens sobre proteção das matas e manutenção das tradições locais. Para a elite dominante, educada na Europa, aquilo eram bobagens sem sentido que passaram a ser ridicularizadas ou até mesmo proibidas de serem contadas. Com o passar do tempo contar essas histórias nos livros ou ensinadas nas escolas seriam feitas de maneira que elas parecessem ser mais engraçadas e caricaturadas do que assustadoras. Basta procurar por imagens no Google de elementos da nossa cultura para entender o que eu quero dizer.

Falta de Conhecimento

download

Desafio dos Bandeirantes.

A falta de pesquisa e de referência sobre as nossas lendas em cenários de RPG faz com que mestres prefiram o modelo pronto de outras culturas. Um RPG que explorou nossa cultura em seu cenário foi “Desafio dos Bandeirantes“. Criado por Carlos Klimick, Luiz Eduardo Ricon e Flávio Andrade, e publicado em 1992 pela editora GSA, foi o primeiro RPG a abordar temas brasileiros. Era um RPG de fantasia histórica, passado numa versão mítica do Brasil colonial (chamado Terra de Santa Cruz), por volta do ano de 1650. Os jogadores podiam atuar como pajés, jesuítas, babalorixás e bandeirantes, além de interagir com personagens do folclore brasileiro como o Saci e a Mula-sem-Cabeça. Um outro RPG que usou um modelo híbrido, falando tanto de coisas de nossa cultura como da cultura estrangeira, foi “Era do Caos“, mais uma vez escrito por Carlos Klimick e Flávio Andrade, mas tendo agora Eliane Bettoccho junto a eles publicado pela editora Akritó. Mas outros RPGs nacionais não seguiram o modelo, preferindo explorar apenas a cultura estrangeira em suas publicações, como o RPG Trevas, de Marcelo Del Debio e publicado pela Daemon, por exemplo. Curiosamente, ou nem tanto, foi justamente Trevas o que teve vida mais longa entre eles. Seria preconceito por parte de jogadores e mestres?

Preconceito

images

Jurupari: Deus do Pesadelos.

Há um certo preconceito por parte de mestres e principalmente jogadores quando é anunciado que a proposta é se jogar com um cenário 100% nacional utilizando as lendas e histórias locais para criar uma campanha. Uma vez tentei usar o RPG “Witchcraft” da Eden Studios com uma ambientação nacional. Em alguns suplementos do jogo há descrição sobre magos Rosacruz no Brasil, mais precisamente no RJ, e até uma descrição detalhada de uma associação de magos existente no Amazonas chamada Apoanu-Apyabaiba, composta por xamãs indígenas do alto Xingu, além das estatísticas do Curupira no suplemento “Book of Hod“, como uma criatura que vive nas florestas aterrorizando os incautos. Nas regras dos magos vodu há descrição de deuses africanos como Ogum, Oxóssi e Xangô, que me fez utilizar elementos do candomblé e umbanda nas aventuras. Há também regras para utilização de estilos de luta como capoeira e Jiu-Jitsu, muito popular entre brasileiros por conta da família Gracie. Infelizmente depois de apenas duas sessões os jogadores pediram para trocar o cenário por algum lugar nos EUA, o que me deixou bastante frustrado.

Falta de Imaginação

MATINTA PERERA2

Matinta Perera: Nossa Baba Yaga?

A falta de imaginação dos mestes em relação a criação de histórias usando nosso passado também contribui para que não aconteça uma empatia dos jogadores com nossas lendas. Geralmente os mestres sempre pensam em criar histórias ligadas somente a cultura indígena ou dos escravos. Isso é muito pouco se pensarmos que somos um país colonizados por portugueses e espanhóis, pelo menos durante o período da União Ibérica, que foi atacado e teve regiões do nordeste ocupadas pelos holandeses e o Rio de Janeiro pelos franceses. Existem várias histórias sobre piratas ingleses que invadiram algumas cidades litorâneas, como Vitória/ES, e relatos de judeus e árabes que fugiram da Península Ibérica em direção ao Brasil devido a Inquisição promovida pela Igreja em terras portuguesas, e que acabou também acontecendo aqui na colônia. Tudo isso nos dá grandes oportunidades de construir histórias e inventar aventuras tendo como pano de fundo esses acontecimentos históricos. Sou grande fã das histórias de John Constantine, o Hellblazer, e várias histórias criadas pelos seus roteiristas foram feitas justamente utilizando o passado histórico do reino britânico, dando um ar de verdade nas aventuras do mago inglês. O fato de termos regiões do mundo, tanto na Europa, quanto na África e Ásia, que falam português também deve ser usado pelos mestres em uma campanha que pode começar no Brasil e continuar através do mundo. Um bom exemplo de como podemos utilizar referências locais em nossas histórias de RPG com nossos sistemas favoritos podemos ver no blog RPG Pará onde uma aventura de Rastro de Cthulhu foi ambientada em Belém dos anos 30. Sensacional.

Falta de Atualização

concept_saci

Saci-Aíba. E aí? Continua achando o Saci engraçadinho?

Muitas de nossas lendas foram criadas há vários séculos atrás. O mundo se modernizou e nossas lendas não, diferentes da lenda do vampiro, do lobisomem e das bruxas, que conforme foram sendo usadas através dos anos pela literatura mais contemporânea foram sofrendo atualizações, procurando aproximar a lenda do novo leitor. Não podemos achar que o jogador desses novos tempos, que mora e vive na cidade, irá ficar sensibilizado com histórias que falam sobre criaturas que protegem florestas e selvas, a menos é claro que ele viva próximo a elas. Mas e se a criatura, um Caipora ou Curupira, estiver na cidade revoltado com os homens que destruíram seus locais sagrados? Ou um Saci que foi aprisionado em uma garrafa por um feiticeiro que ao invés das famosas “traquinagens” descritas por Monteiro Lobato execute ordens do seu mestre que inclui eliminar inimigos? Ou a Matinta Perera que pode ser como uma Baba Yaga nacional que se transforma em pássaro preto e sobrevoa a casa da pessoa que ela quer que morra? Ou o Jurupari, conhecido pelos europeus como “nheengatu“, que é um deus na cultura dos povos que vivem próximo ao Rio Negro. Ele seria o deus da escuridão e do mal, que visita os índios em sonhos, assustando-os com pesadelos e presságios de perigos horríveis, impedindo que suas vítimas gritem – o que por vezes causa asfixia. Pra nós que gostamos tanto das histórias de Sandman e o mundo dos sonhos seria tão difícil criar toda uma mitologia onde poderíamos explorar esse personagem? Sobre esse personagem e outros de nossas lendas que estão sendo atualizados vale a pena dar uma olhada no blog de Altemar Domingos que escreve uma HQ sobre um índio criado por ele chamado Jaguara.

Por Fim

concept_jurupari_esboco

Jurupari em uma versão mais assustadora.

Sinceramente gostaria que mestres e jogadores mudassem suas opiniões e pudéssemos ver mais histórias e aventuras com cenários 100% nacionais. Eu já irei dar minha colaboração neste final de semana ao mestrar uma aventura de Este Corpo Mortal ambientada em Vitória durante o RPG na Ilha. Se possível gostaria de ler relatos de meus leitores sobre histórias que tenham jogado ou narrado usando nosso país e nossas lendas como cenário. Talvez com isso outros mestres e jogadores se motivem e façam a mesma coisa.

Anúncios

21 pensamentos sobre “O Uso Dos Elementos Místicos Nacionais Em Nossas Histórias.

  1. Artigo pertinente, André. O resgate de nossas lendas e a inclusão nas mesas de rpg é um grande desafio e deve render um resultado bem interessante. Vale chamar a atenção para a infantilização das lendas européias, que antes de virarem desenho da Disney, tinha mais violência e até conotação sexual em seus textos originais. Se tais lendas rendem até hoje nas aventuras da maioria dos sistemas, porque não valorizar nosso folclore?

    • Exato, Gustavo. Acho que tudo passa pelo hábito que adquirimos pensando que somente podemos contar histórias usando as lendas de culturas diferentes da nossa. Se bem trabalhadas, contextualizadas e modernizadas, por que não usar as lendas nacionais? Acho que rendem um belo material.

  2. Sempre quis jogar/mestrar num cenário brasileiro, sempre mesmo. Mas só agora os jogadores estão ficando mais flexíveis, consegui fazer isso contando a eles as histórias mas sem dizer o nome da criatura, no final quando dizia eles ficavam interessados em encontrar com um bicho daqueles no jogo, ou não… rsrs. Pretendo começar uma campanha de Changeling: Os Perdidos ambientada aqui no Rio e aplicar os traços do folclore do país. Assimilando as festas e datas comemorativas às Cortes (o que são um problema já que elas retratam o clima do hemisfério norte), colocando o Jurupari como obstáculo bem complicado, já que entra em conflito com os personagens por estarem disputando o mesmo terreno, os sonhos. E principalmente, usando versões bem mais macabras do pessoal do Sítio. Encontrei um livro que me inspirou bastante, As 100 Melhores Lendas do Folclore Brasileiro. Mas ainda procuro por mais fontes. O Brasil é extremamente místico, acho que explorar esse aspecto num rpg, além de aproximar o jogador da realidade dele, traz uma experiência completamente nova.

    • Nossa cultura é amplamente mística. Em qual outro lugar do mundo temos festas religiosas cristãs associadas com festas e a religião africana? Ou, como tem em Botafogo, uma casa enorme escrita na frente: Templo da Magia?? Isso é simplesmente fantástico e dá uma ambientação para aventuras com muito potencial. Boa sorte na sua aventura e depois comenta aqui com a gente como foi a experiência.

  3. Ponho em xeque a questão do preconceito com a temática nacional. Modero o grupo Era do Caos e Santa Cruz RPG. Quando comecei o projeto Santa Cruz em 2007 minha ideia era resgatar elementos que estavam perdidos desde o desafio dos bandeirantes, usei o sistema daemon que acabava de estar liberado, fiz um módulo básico e deixei para download no site da daemon e no mustiply.Em pouco tempo era seguido por uma gama muito grande de pessoas, que passaram a contribuir, vieram aventuras prontas, artigos sobre piratas, vodoo. Que renderam mais uns 4 módulos, fora o que foi perdido quando o multiply encerrou as atividades. A um ano quando eu decidi encerrar o projeto vieram pedidos de publicação e eu lancei um novo módulo, onde intensifiquei a pesquisa sobre mitos indígenas e tracei um cenário para a américa latina na época da união ibérica integrado à ambientação com o Trevas. Apesar da falta de revisão de texto e dos erros de uma edição feita a uma mão, o livro tem tido uma boa aceitação. O mesmo falo para venda do estoque encalhado da Akritó desde que ele começou a ser vendido no Facebook. Acredito que a era do preconceito passou, ele marcou o desafio nos anos 90, que foi identificado como algo didático que nunca foi (a proposta didática é a proposta da série mini-gurps e não do desafio que sempre foi um jogo de aventuras e exploração). Hoje a roupagem nacional paira como certo exotismo cult, o que não deixa de ser contraditório.Aliás Lajedos & Lagartos é uma prova da possibilidade de se fazer muita coisa boa com base na cultura nacional, e Alex Pina está prestes a lançar um módulo sobre metamorfos, que se baseia em uma minuciosa pesquisa de mitos indígenas, negros e europeus. Há muito ainda a ser explorado, mas acredito que o RPGista de hoje está mais preparado para novas experiências do que estava a vinte anos.

    • Excelente Leandro! Fico muito feliz com seu relato e desde já deixo a sua disposição se quiser usar meu blog para publicar novamente os módulos feitos por você e seu grupo sobre a Era do Caos e Santa Cruz RPG para que mais mestres e jogadores possam fazer download do material. Quanto mais incentivarmos essa mudança no comportamento e na visão dos jogadores e mestres mais estarão utilizando o Brasil e sua cultura como cenário de suas aventuras.

  4. Ótimo texto para exercitar a reflexão! Há quase um ano comecei a esboçar uma postagem com este aspecto, mas não foi para frente e fiquei apenas no título… Grato por citar o RPG Pará, que colaboro.

    Quando me encantei pelo RPG francês ‘Les Ombres d’Esteren’ – ou melhor, JDR, ‘ jeu de rôle ‘, jogo de representação como eles chamam – teci esta reflexão, do motivo para a produção de um jogo que é parte da cultura deles. E não apenas isso, já que temos jogos assim também, como os citados no texto e comentários. PathFinder e D&D fazem sucesso por lá, e são jogos inspirados na história medieval, algo que foi intenso na França, ainda mais com a Guerra dos Cem anos contra Inglaterra.
    http://www.rpgpara.com/les-ombres-desteren-as-sombras-de-esteren/

    Colocarei o ‘link’ desta postagem no ‘twitter’ RPG e Educação que administro.
    https://twitter.com/RPG_educacao

    Abraços!
    Gilson

    • Obrigado pelo comentário, Gilson. Acho o RPG Pará um dos melhores blogs, e agora portal, sobre nosso hobbie. Acho que tudo parte do referencial histórico mesmo. Como somos um país sem memória achamos difícil e estranho exercitar a arte de contar histórias usando nossa terra como cenário. Quanto mais ficarmos a par do que aconteceu em nossa cidade ou estado no passado e sabermos usar isso como pano de fundo para nossas campanhas cada vez mais o estranhamento vai deixando de existir e começaremos a usar nossas lendas e rica história em nossos RPGs.

    • Acho que podemos fazer várias reflexões saindo do RPG e pensando, por exemplo, porque temos uma relação tão mal trabalhada com nossa história. O que mais me deixou feliz com este artigo foi a possibilidade de fazer contato com pessoas que tem uma outra visão sobre o assunto, o que está me motivando a escrever mais sobre a temática nacional em nossos RPGs.

  5. Olá André! Conheci o Brega em um evento aqui no Rio quando eu mestrei para crianças uma aventura one shot baseada nas lendas brasileiras (http://pareepenseblog.blogspot.com.br/2014/06/joga-mita-iii-uma-feliz-experiencia.html). Foi tão interessante que decidi estruturar um cenário mais complexo, tanto para Savage Worlds quanto para ECM.

    Gostaria de saber como foi sua experiência na adaptação e no jogo em si. Caso você tope, envie mais informações após a experiência para mim (pode ser pelo facebook, e-mail, etc). Acho que estas trocas são super-válidas.

  6. Caros amigos, gostei muito da matéria. Sempre quis fazer um mundo de RPG com a minha personagem Jaguara e todo o seu universo de seres do folclore, criaturas sobrenaturais que habitam o Amazonas e seres fantásticos da cultura indígena brasileira. Meu nome é Altemar e se alguém deste blog ou mesmo um leitor quiser conversar sobre a possibilidade de uma parceria em me ajudar a criar um mundo de RPG da Jaguara e seu universo, entre em contato, por favor.
    altemar@eurecadesign.com.br

    Obrigado por me citarem nessa valorosa matéria.

  7. Eu escrevo histórias desde os meus 10 anos e sempre gostei de usar elementos da nossa mitologia indígena e folclore que provem das culturas que por aqui ficaram (cultura afro, como por exemplo). Eu também abordei culturas e mitologias de outros países, pois amo essa parte da história do homem, independente de ser nacional ou não, porém dei ênfase nas características “verde e amarela”. As influências presentes nas minhas histórias vão além do folclore, pois também gosto de abordar as coisas que vejo no dia a dia, como por exemplo, os trabalhadores que vendem produtos nos trens, as vans que fazem lotada, a corrupção, as melícias, as favelas, em fim, tudo o que vejo, e olha que estou fazendo isso num mundo, cujo o ambiente é medieval kkkkkk viva a imaginação 🙂

  8. Eu achei este artigo incrível, inclusive é necessário buscar essa cultura. Inclusive criar cenários nos sistemas já conhecidos no Brasil. Eu tentei uma adaptação do tão conhecido D&D incluindo a “Terra Brasilis” como cenário principal, em uma época medieval com fantasia e magia, e foi incrível. Adorei essas ilustrações ! Realmente dá medo, kk

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s